Durante muito tempo as professoras de Educação Infantil desempenharam várias funções: trabalhavam os conteúdos de sala de aula, cantavam, contavam histórias, ensaiavam dramatizações de final de ano, desciam para o pátio para a recreação dirigida, desenvolviam atividades plásticas, enfim, eram ecléticas e muitas delas demonstravam bastante competência e paixão ao transitar por todas essas atividades. A professora, nesse contexto, tinha a possibilidade de estreitar vínculos de confiança e reciprocidade com seus alunos, pois tinha todo um período para estar com as crianças, ensinando, escutando, brincando… As aulas não eram interrompidas abruptamente para que as crianças caminhassem da sala principal até as salas de Artes, Música, Informática e outras.

A criança tem necessidade de ser ouvida, de contar sobre suas coisas, mas atualmente quase não tem tempo para ser ouvida, pois as atividades atropelam – se e os conteúdos programados são prioridade. Uma discussão calorosa sobre um determinado tema é interrompida, pois tocou o sinal e chegou a hora de formar uma fila para ir para a sala de Informática; O aluno está quase vencendo o desafio para “mudar de fase” na proposta de Informática, mas a aula termina para que as crianças possam ir para a aula de Música e assim por diante.

Hoje, uma grande parte das escolas particulares de Ensino Infantil e séries iniciais tem o seu corpo docente composto pela professora de sala e os professores das chamadas atividades extras. No Brasil, esta tendência ganhou força no final da década de 80 com o “boom” dos livros de Gardner apresentando a teoria e as propostas para o desenvolvimento das múltiplas inteligências. Como ocorre com toda mudança de paradigma, tivemos perdas e ganhos. Penso ser muito positivo que a criança, desde pequena, entre em contato com seus diversos potenciais e desenvolva diferentes habilidades com a intermediação de professores especialistas, mas dentro de um contexto saudável de infância, onde exista espaço e tempo para os pequenos brincarem espontaneamente.

Ficamos felizes e orgulhosos ao vermos nossos filhos interpretarem um protagonista no teatro da escola com desenvoltura, jogar bem futebol, tocar flauta doce, ler fluentemente, nos ensinar a utilizar nossos ipods , celulares de última geração, mas em contrapartida, é senso comum que na vida, de uma maneira geral, e na escola em particular, as relações estão mais difíceis. Cenas de indisciplina, desrespeito, individualismo e “bulling” acontecem a todo momento.

Sem querer ter um olhar simplista para uma situação tão complexa, penso que a escola, ao reproduzir em cotidiano os modelos valorizados por uma sociedade extremamente consumista, individualista e competitiva, cujas crianças têm as  agendas tão lotadas e concorridas quanto a de seus pais, contribui de alguma maneira para que ocorram esses eventos negativos.

Algumas escolas oferecem diversas atividades, mas de modo estanque não havendo conexão entre disciplinas e professores. Assim descontextualizadas, muitas vezes fica difícil para a criança encontrar significado e motivação naquilo que realiza. Mas felizmente, também existem escolas que contam com professores especialistas que trabalham de maneira harmoniosa. As atividades extras estão inseridas num contexto pedagógico consistente que privilegia um trabalho interdisciplinar e cooperativo com frequentes relações de trocas afetivas e de conhecimento.

Enfim, quando os professores e a  coordenação trabalham em sintonia, o “ensinar” e “aprender” são vividos pelos coordenadores, professores e alunos com alternância dinâmica. Esse modelo, essa atmosfera de cumplicidade é tão ou mais importante que os conteúdos e conceitos passados em sala de aula sobre cidadania e boa convivência, pois há coerência entre discurso e prática.


Colunista: André Luis de Oliveira

  • André Luís Ferreira de Oliveira
    André Luís Ferreira de Oliveira
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André Luís Ferreira de Oliveira
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Psicopedagogia e Escritor (Literatura Infantil)
André nasceu em Ribeirão Preto, em 1964. Pedagogo, com especialização em psicopedagogia clínica e institucional. Iniciou em 1983, no Colégio Pequeno Príncipe( Ribeirão Preto – SP) como recreacionista. Fundou a Escola Calidoscópio, atuando durante 10 anos como diretor da Educação Infantil. Em Campinas, foi instrutor pedagógico na Fundação Síndrome de Down. Na UNIFRAN( Universidade de Franca) exerceu durante 4 anos a função de docente nos cursos de Pedagogia e Fonoaudiologia. Em 2000, retornou ao Colégio Pequeno Príncipe, onde atua como diretor, psicopedagogo, desenvolvendo projetos de jogos corporais e atividades ligadas à leitura e escrita. Ministra cursos e oficinas para professores, além de oferecer atendimento psicopedagógico clínico para crianças. É autor de A CIDADE DOS CACHORROS, BICHOS DIVERSOS, POEMINHAS RADICAIS, entre outros livros, para o público Infanto-juvenil. Criou o JOGO DA ACESSIBILIDADE – Ministério da Educação – Ministério das cidades – ABEA – MEC. André é colunista na revista “Leque” de Ribeirão Preto.

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