Em algum dia do mês de junho de 2013, quando explodiam manifestações por todo o Brasil a toda hora e esse era o assunto que dominava a internet, a televisão, o rádio e as rodas de conversa, eu estava na escola, em uma aula que, se bem me recordo, era de Língua Portuguesa. Em um determinado momento daquela aula fui tomada por uma angústia que na hora eu não soube de onde vinha. Eu tive a sensação de estar presa, como um pássaro numa gaiola.

Estou quase certa de que já havia sentido aquilo antes, porém aquele dia me marcou, porque, num súbito, aproveitei o momento em que o professor se virava para escrever na lousa, tomei um lápis e uma folha da minha agenda e escrevi algo que mais tarde transformei em música: “Minha angústia é ver a vida presa à rotina e não poder cantar quando eu quiser. Todo o conformismo cala. É a voz que fala pra eu não mais pensar”.

Eu tive de escrever aquilo, porque em minha mente fervilhavam pensamentos sobre o momento histórico que o Brasil vivia, algo que eu nunca havia presenciado, algo que me despertava vontade de fazer algo diferente, mas eu tinha de estar ali, sentada no meu lugar, prestando atenção na aula, como diz o “ritual” escolar pelo qual toda pessoa deve passar se quiser ser “alguém na vida”.

Naquele dia acendeu-se em mim uma chama que arde até hoje: há algo errado com esse “ritual”. Sem ter ainda ingressado na faculdade, sem ter sequer noção de como seria meu futuro como estudante de Pedagogia, eu já questionava o motivo de eu ter de me colocar de castigo e engolir aquela enxurrada de conteúdos disciplinares dentre os quais poucos realmente me despertavam interesse ou faziam sentido para mim. Eu tinha de estudar, fazer simulados e mais simulados, provas e mais provas, treinamentos e mais treinamentos, sob pena de não tirar boa nota no ENEM ou não ser aprovada em nenhum vestibular (o terror de todo estudante de Ensino Médio).

São raros os jovens que não passam por momentos como aquele meu. Eu sentia algo que não cabia mais em mim e acabei por expressar em forma de poesia. Cada um demonstra o que sente à sua maneira, alguns mais discretos, outros menos discretos, talvez àquele modo que às vezes é devolvido com um “sermão” e um bom passeio à diretoria. São raras as mentes que nunca se sentiram engaioladas nesse sistema que empacota o conhecimento, cortando-o em diversos pedaços e, ao invés de proporcionar uma visão ampla do mundo, o faz parecer um quebra cabeça indissolúvel. São raras as escolas que revelam a verdade de que tudo está conectado. É o que chamam na Pedagogia de Transdisciplinaridade. Não existem disciplinas completas, porque uma não sobrevive sem a outra. Não se aprende realmente se o aprendizado não estiver interligado em um todo que envolve o contexto em que se vive. Foi isso que eu aprendi hoje e era isso que me faltava saber naquela época para sanar minha angústia. O mundo é, sim, um todo com significado, e não um monte de pedaços vazios, porém, é triste pensar que não é isso que a escola ensina.

Desde quando escolhi seguir o rumo da educação, realmente me pesava na consciência pensar que teria de trabalhar nessa mesma lógica, mas eu não tinha opção, pois era a única que eu conhecia. Enxerguei a luz de que precisava quando assisti ao documentário “Quando sinto que já sei”, que um dia uma professora da faculdade utilizou em uma de suas aulas. Ele revelava um jeito de fazer escola completamente novo para mim, diferente de tudo o que eu já havia visto a respeito de escolas. Eu já havia ouvido falar de escolas diferentes, metodologias diversas, mas o que se encontrava ali estava em uma outra lógica, outra perspectiva. Eu vi escolas que não seguem o ritual, que não ensinam obrigando, que não dividem o conhecimento em tempos e pedacinhos. Foi então que encontrei um motivo maior para seguir em frente com a educação: saber que é possível fazer com que ela seja boa o suficiente para não engaiolar as pessoas, mas libertá-las. Desde então venho estudando cada vez mais em busca de entender essa nova perspectiva. Desde então eu sei que é numa escola assim que eu quero trabalhar.

Colunista: Larissa Moraes Tavares


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Larissa Moraes Tavares
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Larissa Moraes Tavares cursa Licenciatura em Pedagogia no Centro Universitário do Sul de Minas – Unis. Já atuou na Educação Infantil como professora de Música, professora de Inglês e monitora. Ensina violão e canto para crianças e adolescentes. Acredita em uma sociedade transformada por meio da educação, arte e cultura.

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