Ouvi, na semana passada, uma mãe se queixando na porta do colégio:
– Não tem jeito! Minha filha não gosta mesmo da escola!

Ao invés de seguir meu caminho e rumar para a sala de professores, diminuí o passo e quis participar, ainda que como ouvinte, daquela breve discussão. A mãe de uma aluna, provavelmente de 9º ano, conversava com outra senhora, enquanto ambas observavam suas filhas se afastando na multidão. Fingi que estava procurando alguma coisa na pasta e fui ouvindo o que falavam:
– No começo, não era assim! Ela adorava! Na educação infantil, e mesmo no fundamental 1…

– Eu sei como é isso: a minha também! Vinha animada com as aulas, queria ver logo a professora, os funcionários, os amigos… Contava sobre o que estavam aprendendo, ficava preocupada em fazer as coisas em dia, caprichava…

– É… Não sei o que acontece… No momento em que os assuntos ficam mais profundos, as matérias, mais interessantes… Parece que perdem o ânimo… Hoje, a gente tem de convencê-los, dia a dia, de que vale a pena vir à escola. As coisas são estranhas, não?

– Acho que a escola deve estar fazendo alguma coisa… que… não sei… mas, que não está certa…

– Verdade! Vejo o ânimo dela quando se prepara para sair com as amigas, para ir ao treino, para ver as séries no Netflix…

– Na hora de aprender, parece que travam… O que fazer? Não sei como lidar com isso.

Nesse instante, um amigo professor veio salvar-me de meu delito. Com uma série de observações sobre certa prova que estava preparando, abortou minha escuta clandestina. Enquanto falava sem parar, puxou-me pelo braço e me levou para bem longe. Depois disso, quando finalmente me vi livre daquele desesperado, as mães já tinham ido embora. E não pude saber mais sobre as tais crianças descontentes. E aquilo não me saiu da cabeça. Afinal, o que estaria acontecendo com a escola? O que poderia não estar dando certo em nosso trabalho de professores, coordenadores, diretores? Por que os alunos parecem não querer mais estudar?

É verdade que normalmente preferimos o não fazer à labuta. Uma atividade prazerosa será quase sempre escolhida quando tivermos de optar entre a mesma e um trabalho qualquer. E estudo é trabalho: fato! Porém, podemos pensar menos simples que isto. Além do quê, quando as crianças menores entram na chamada educação infantil, normalmente a adoram. Têm prazer com as atividades, com as descobertas dos porquês de certas coisas, com as novas formas de se expressar, com as palavras que conseguem escrever… Lembro-me muito bem de ver meus filhos excitadíssimos contando o que haviam feito em atividades escolares. Aliás, era muito comum vê-los assim. Queriam nos explicar como as coisas funcionam, nos testavam em nosso conhecimento e, muitas vezes, não viam a hora de poderem chegar à escola para alguma atividade específica programada no dia anterior. Descobrir, conhecer e narrar aquilo que vivenciavam parecia-lhes algo muito gratificante. Certa feita, disse à mãe deles que, vendo sua excitação, chegava a compará-los com antigos sábios como Arquimedes ou Da Vinci – gente sabidamente encantada com aquilo que descobriam ou criavam. Era o prazer de desvelar a natureza, descobrir seus segredos, profana-la. Mas, no momento em que iniciaram o ensino fundamental…

Não creio que possa haver uma explicação precisa para isto. Como professor, nem vejo esta passagem aos primeiros anos da alfabetização formal como uma radical mudança no processo de ensino. Talvez as coisas corram por outro caminho. Afinal, professores e coordenações se desdobram diariamente para que consigamos criar situações de aprendizado mais prazerosas e interessantes. Podemos até dizer que a escola, hoje, preocupa-se muito mais com o gosto e a atenção do aluno do que em qualquer outro momento da história. Porém, quem sabe, o sentido do conhecimento esteja desvirtuado. Senão vejamos.

É certo que o humano, em sua aventura de exploração e domesticação da natureza, desenvolve conhecimento, e isto lhe é sempre engrandecedor e prazeroso. Representa vitória, emancipação, libertação. Apreender os segredos do mundo e coloca-los a seu serviço sempre representou, para a humanidade, uma luta contra inimigos misteriosos e perigosos. E as vitórias nem sempre vieram rápido; muito menos pacificamente. Seja frente às batalhas contra fenômenos inóspitos e aterrorizantes da natureza, ou nos ousados gestos de heresias e desobediências ao poder instituído, o humano sempre foi insistente, ousado e rebelde. E o conhecimento sempre foi conquista: algo garimpado, arrancado a força. Fazendo vista grossa à condição misteriosa do mundo, conseguimos burlar seus segredos e fazer deles nossa propriedade. Tempestades, feras, exílios, fogueiras… Nada disto pôde nos deter. E, quem sabe, os pequeninos sintam-se também desbravadores do universo quando começam a investiga-lo e falar a sua “língua”. Até o instante em que começam a aprender, formalmente, matemática, línguas, ciências etc. Aí, o sentido muda!

O conhecimento, agora, passa a ser obrigatório. Mais que isto, é cobrado e avaliado. A antiga insubordinação não é mais necessária, pois o mundo, agora, nos convoca a aprender. Aprender ou aprender: não há chance de escolha. As coisas sofrem um desvio de 180 graus; os meios se transformam em fins. Agora, é preciso que nos aventuremos obrigatoriamente na busca pelo saber. O novo aprender passa a não ser mais um ato subversivo, mas torna-se coisa de bom moço. E, contrariando radicalmente aquilo que a história nos demonstra, quem não chegou ainda à condição de apaixonado – ou obstinado – pelo conhecimento colecionará apenas anti troféus – nas formas, por exemplo, de notas baixas ou advertências. O antigo risco dissipou-se, porém a obediência ainda é cobrada. Só que, agora, desloca-se para o outro lado. Coitado de quem não quiser aprender!

Antes de dormir, naquele mesmo dia, fiquei pensando nisto tudo e cheguei até a imaginar o coro de vozes que poderia engrossar as falas da mulher daquela manhã. Pensei nos novos rebeldes e hereges de hoje. Meninos e meninas que se recusam a obedecer normas e decidem simplesmente não aprender. Parece, sim, que os Galileus e Brunos de hoje poderão ser figuras bem distintas daquelas que a história já registrou. Não mais pensadores ou inventores, talvez sejam aqueles que têm ousado nos indagar sobre os porquês de tanto saber compulsório – inclusive sobre temas que parecem não ter qualquer utilidade. São, provavelmente, os que já se decidiram, hoje, por não mais cultuar as novas crenças que a escola propaga. Meninos e meninas que se fecham em novos mundos buscando outros sentidos para suas vidas – inclusive no que se refere às razões para apreenderem a realidade.  Aqueles que escolheram apenas não ter de desbravar o mundo ao nosso modo.

Quase pegando no sono, voltei a pensar na palavra heresia. Herança, sem dúvida, da idade média, tal vocábulo nos vem quase sempre associado a terror ou sofrimento. Porém, trata-se de um termo que, bem antes do medievo – mais precisamente na antiguidade grega[i] -, significava, entre outras coisas, escolha.

[i] Do grego haíresis

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Colunista: João Luiz Muzinatti

  • João Luiz Muzinatti
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João Luiz Muzinatti
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Sobre: Área de atuação: Filosofia / Matemática / Filosofia da Educação Matemática.
Sou professor de Matemática e Filosofia.
Atuo como consultor e professor em Distúrbios de Aprendizagem em Matemática – atuo preferencialmente com a Discalculia do Desenvolvimento.
Sou doutorando em Filosofia da Educação Matemática pela UNESP de Rio Claro, atuando na linha da Educação Matemática Crítica – meu orientador é o Professor Doutor Ole Skovsmose.
Sou criador e consultor no site www.amatematicaeseusproblemas.com.br.Tenho um canal de vídeos de Filosofia, no YouTube, em nome de “Muzinatti “.
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