Iniciarei este artigo reapresentando meu currículo. Sou socióloga, mestre na área social, pesquisadora em educação, proprietária de uma escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental I e professora de sociologia da educação na graduação de pedagogia. Porque me reapresento? Para não ficar dúvida de que o tema que tratarei aqui pertence totalmente ao meu universo de trabalho além do meu universo pessoal.

Justamente por estar tão envolvida com o universo educacional,  tenho ficado muito preocupada com a atitude da geração atual de pais e mães. Há algo de assustador na maneira como estes jovens pais estão conduzindo a infância de seus filhos. Na ânsia de protegê-los dos possíveis males da sociedade, estes pais e mães estão adoecendo de temor e transferindo tamanha insegurança aos seus pequenos filhos.  São exageros que, infelizmente, afastam cada vez mais as crianças da própria condição de criança. São posturas tão defensivas dos pais que abortam a infância e até mesmo o desenvolvimento motor de seus filhos. Crianças não podem mais pular, ousar, dar cambalhotas, correr, se sujar, suar. São inúmeras coordenadoras de escolas relatando as solicitações dos pais para que seus filhos não se sujem. Levar um tombo na escola, ou participar de uma disputa por brinquedos e sair arranhado, se aproxima a uma catástrofe mundial!

Acho que a maioria daqueles que estão lendo agora o que escrevo, já devem saber deste novo fenômeno de pais superprotetores. Mas, o que mais me inquieta é saber a origem disso. O que leva esta geração atual a temer tanto pela vida de seus filhos? Juro que como socióloga, tento buscar apoio em várias teorias, em vários conceitos e estudos para compreender a origem de tantos medos.

Talvez fosse necessário reler uma grande obra do historiador Erik Hobsbawn, “A Era dos Extremos” para entender o século XX e suas consequências depois de duas grandes guerras, e a luta do capitalismo contra o socialismo. O que ocasionaram no comportamento humano? Será que o medo e a forma como criamos nossos filhos na atualidade reflete anos e anos de lutas, guerras, violências que foram formando gerações, filhos deste medo?

Aliado ao fato de que a Globalização do século XXI potencializou o capitalismo gerando novos comportamentos sociais e culturais. Precisamos de Hanna Arendt e sua análise sobre “A Condição Humana”. A autora afirma: “Com palavras e atos nos inserimos no mundo humano, realizando um segundo nascimento no qual confirmamos e assumimos o fato original e singular do nosso aparecimento físico”.

Mas para os novos pais, este aparecimento físico do filho em suas vidas soa como uma tortura perpétua. Afinal um filho é eterno e esta angústia e medo potencializado dos pais será cada vez maior? Para dar um exemplo de que não estou exagerando ouço a seguinte frase de um pai em minha sala da diretoria escolar: “Minha esposa comprou um sapato e meu filho caiu, ralou os joelhos porque não sabe andar de sapatos ainda” Então perguntei: E o senhor o que fez? Ensinou ele a andar com os sapatos? Continuou treinando seu filho? Qual não foi a minha surpresa quando o pai diz: “Não, não vou deixar mais ele usar este sapato” Mas fica em mim a dúvida: Será que o sapato é realmente o problema?

Este pai estava muito bravo com a esposa porque ela não antecipou, não previu que o menino de um ano e meio poderia cair e ralar o joelho! Mas a pergunta que não quer calar é: Qual criança que começou a andar faz cinco meses não cairia? Qual o real problema de cair e ralar os joelhos?

Assim como gostaria de saber qual o real problema de uma criança ser criança?

Vamos ajudar estes pais. Eles sofrem, real e intensamente, por qualquer coisa que saia do seu controle. Desta forma, não estão proporcionando aos seus filhos a oportunidade de desenvolverem suas habilidades tanto motoras quanto psicológicas e sociais. É fundamental deixar a criança a aprender a se comunicar sozinha. Se um bebê aponta o dedo para o copo de água e todas às vezes os pais dão imediatamente o copo à criança, então esta criança terá muita dificuldade em desenvolver a fala e aprender a falar “água”.  Os pais não podem subestimar a capacidade de seus filhos. A superproteção não protege realmente ninguém, pois se você deseja um filho bem cuidado, então tente desenvolva suas habilidades para que ele saiba caminhar pela vida.


Colunista: Patricia Rachel Pisani Manzoli

  • Patricia Rachel Pisani Manzoli
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Patricia Rachel Pisani Manzoli
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Atuação: Educação, Sociologia e Antropologia, Pedagogia, Serviço Social.
Patricia Manzoli é Cientista Social (UNESP – Araraquara), Mestre em Serviço Social (UNESP – Franca). Pesquisa: Responsabilidade Social: um estudo sobre o compromisso ético e cidadão do empresariado brasileiro com a educação. MBA em Elaboração, Análise e Avaliação de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) – Pesquisa: Gestão da Qualidade em Projetos Educacionais de Responsabilidade Social. Docente Universitária da Estácio -Uniseb. Sócia e coordenadora educacional do Colégio Monteiro Lobato de Ribeirão Preto. Autora de material didático na área de Ciências Sociais direcionada para Ensino Fundamental II. Palestrante da área educacional.
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