Está nos jornais: 53 mil inscritos no ENEM-2015 tiraram zero em redação! E, em três das quatro áreas que compõem o exame, a média caiu. Quer dizer, decorridos doze anos de estudos no Ensino Básico, muitos jovens continuam sem saber escrever corretamente e sem conseguir se expressar bem. Em 2014 apenas 250 haviam alcançado nota máxima. Em 2015, o número despencou: 104! É de se estranhar, pois, que o ministro da pasta considere como “oscilações normais” tal descalabro. Certamente algo muito sério está ocorrendo: Se somarmos 37% dos que fizeram menos de 500 pontos com 33% (entre 501 e 600 pontos), teremos quase 70%! Significa dizer que quatro milhões de jovens, às vésperas de ingressarem no mercado de trabalho e/ou no Ensino Superior, mal conseguem resolver problemas simples, interpretar dados de manuais e compor um relatório corriqueiro! São, pois, reduzidas suas chances de autossuficiência profissional e ascensão social.

Que ninguém me diga que a causa de tudo é que os dois milhões de professores brasileiros são conservadores e adoram reprovar. Escolas que utilizavam métodos hoje tidos como antiquados, cumpriram seu papel com eficiência no passado recente. Hoje em dia, há as que conscientemente adotam métodos conservadores com ótimos resultados. Não defendo o método A ou B; minha experiência me ensinou que, bem utilizados, quaisquer deles, dá bom resultado. É que a causa do problema não é metodológica – é política.

Por outro lado, constatar que, em 2016, uma das áreas que oferece mais vagas para o nível superior é Pedagogia, assusta. A situação é crítica porque, mesmo tais vagas continuarão sem serem preenchidas já que boa parte dos poucos que optam pelo curso, não pretende trabalhar em Educação, como demonstraram recentes pesquisas. O mesmo ocorre nas Licenciaturas. Afinal, quem quer ser professor hoje, quando o primeiro grande desafio é conseguir fazer os alunos compreenderem que se qualificar é diferencial para a vida deles próprios? E que, embora seja direito assegurado por lei, vale lembrar que todo direito, remete a dever correspondente. O docente precisa dar aulas motivadoras e usar metodologia adequada, sim; mas o aluno tem que entender que é ele o maior interessado em progredir. E progredir demanda se dedicar e ser disciplinado. O que impera em nosso meio, porém, é a ideia de que é mister fazer com que, nas aulas, estudantes se sintam tal e qual estivessem na web ou nos joguinhos eletrônicos! Enquanto especialistas discutem o problema do celular e assemelhados em aula, a realidade é que ainda temos 112 municípios sem uma biblioteca pública! E, como tornar a aula uma festa, se, em salas lotadas e sem infraestrutura, docentes mal conseguem se fazer ouvir, tal o nível de indisciplina? Devolvam o poder aos gestores escolares e aos docentes, que, a seguir, muito se poderá solucionar.


Colunista: Tania Zagury

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Tania Zagury
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Filosofa, Escritora, Membro da Academia Carioca de Letras.
-Professora Adjunta da UFRJ / Universidade Federal do Rio de Janeiro/ De 1977 a 2000.
-Coordenadora dos Cursos de Graduação em Supervisão Escolar, Administração Escolar e Orientação Educacional da Faculdade de Educação, da UFRJ. De 1987 a 1992.
-Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro / UFRJ
-Filósofa, graduada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro / UERJ-Escritora com 25 livros publicados no Brasil e no exterior
-Conferencista e Pesquisadora em Educação
Mais de 1850 entrevistas concedidas para televisão, jornais e revistas de circulação nacional, dentre os quais: Veja (Entrevistada das Páginas Amarelas, entre dezenas de outras), Nova Escola (Entrevista nas Páginas Verdes), Isto é (Entrevistada das Páginas Vermelhas, entre outras), Época, Folha de SP, Estadão, Zero Hora, O Globo, Correio Brasiliense, Jornal do Brasil, Diário de Natal, Estado de Minas, Jornal Nacional, Globo Repórter, Programa do Jô (quatro vezes) Mais Você, Sem Censura (cinco vezes), Marília Gabriela Entrevista, Fantástico, Globonews, Almanaque etc.

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