Em junho de 2012, a revista Presença Pedagógica publicou um artigo sobre educação patrimonial na escola. Nele a autora apontou, pautada na sua experiência em Minas Gerais, que o principal problema desse tipo de ação no ambiente escolar é a “insegurança e equívoco por parte significativa dos profissionais da educação” (SIMÕES, 2012, p. 80). Isso é explicado por ela como resultado do desconhecimento do conceito de patrimônio cultural, o que levaria a confundi-lo, por exemplo, com patrimônio público. Matizando esse posicionamento, devemos levar em conta que esse tipo de “confusão”, se explica pelo fato de em nossa cultura ocidental a palavra patrimônio estar historicamente associada aos bens materiais, ao legado que se passa de pai para filho, e à propriedade (pública e privada).

“…A proposta da UNESCO para a educação em museus pressupõe que se deve ofertar oportunidades que contribuam para uma “educação ao longo da vida”. O objetivo principal seria conscientizar para o valor da cultura e história de cada grupo, fomentando o respeito às diferenças, representadas nos diferentes modos de vida. Com essa ação educativa, diferentes povos sentem-se responsáveis coletivamente pelo patrimônio da humanidade, mesmo em sua diversidade…”

Mesmo podendo assumir significados diferentes para grupos diversos, isso não significa que essa variedade de percepções resulte de “equívocos”, mas sim de maneiras diversas de apropriação do conceito, que vem se tornando cada vez mais complexo.

Profissionais de várias áreas, que estão envolvidos no debate ou na prática preservacionista, têm discutido a crescente ampliação da noção de patrimônio cultural, gerando múltiplas e novas percepções acerca desse campo do conhecimento.

Com ênfase nas relações sociais ou mesmo nas relações simbólicas, e não nos objetos e nas técnicas, tem se enfatizado uma compreensão da realidade social como essencialmente multicultural, priorizando a percepção dos múltiplos sentidos atribuídos ao patrimônio cultural por uma determinada sociedade. Ao analisar o que qualifica algo como patrimônio cultural, tem sido colocado em segundo plano o valor “em si” (intrínseco) dos “bens de pedra e cal”. Agora, as atividades de pesquisa, de ensino e de intervenção no patrimônio cultural cada vez mais têm considerado o seu valor referencial, aquele que é atribuído pelos sujeitos para os quais o bem faz sentido.

A partir desse pressuposto, concebe-se a noção de patrimônio cultural como social e historicamente construída, podendo assumir compreensões diversas, de acordo com a visão de mundo de cada grupo. Um bom exemplo são as Festas do Divino Espírito Santo, presentes em vários países, inclusive no Brasil. Nelas, a coroa, a bandeira, os objetos e a comida “são manifestações do Espírito Santo”, nas quais matéria e espírito (material e imaterial) se confundem. Na percepção dos especialistas em patrimônio, esses mesmos objetos são percebidos como representações tangíveis que constituem a identidade e a memória daquela comunidade. Já para a Igreja Católica, esses elementos “são apenas símbolos” que assumem o significado de ser apenas “matéria”, não se confundindo com o espírito. São, portanto, apropriações diversas de uma mesma prática cultural.

A proposta da UNESCO para a educação em museus pressupõe que se deve ofertar oportunidades que contribuam para uma “educação ao longo da vida”. O objetivo principal seria conscientizar para o valor da cultura e história de cada grupo, fomentando o respeito às diferenças, representadas nos diferentes modos de vida. Com essa ação educativa, diferentes povos sentem-se responsáveis coletivamente pelo patrimônio da humanidade, mesmo em sua diversidade.

Nessa linha de raciocínio, em um museu, a exposição de uma bandeira do Divino teria como objetivo estabelecer um contato entre os visitantes e a cultura do outro. A expografia deve assumir uma função educativa, na qual a narrativa comunique as experiências da Festa do Divino por intermédio de artefatos que lhe são próprios, como a bandeira.  Isso auxilia na construção de pontes que facilitam a “interpretação” de uma cultura pouco conhecida, ou mesmo desconhecida, pelo grande público.

Diferente da sua função dentro do museu, onde há um valor patrimonial (de bem a ser preservado para fins memoriais) no grupo social responsável pela prática sociocultural da Festa do Divino, a mesma bandeira assume uma função ritualística, constituindo-se como um importante elemento para receber uma “graça”, juntamente com a coroa e outros objetos considerados sagrados. Antes de tudo, eles se tornam elementos de ação, importantes na relação de troca com a divindade.

Ao estabelecer o contato entre todos esses significados, colabora-se para que, ao conhecer os outros, cada um conheça melhor a si mesmo. Compreender isto ajuda a respeitar a multiplicidade e a complexidade das relações humanas por meio da identificação de valores comuns, que atuam como a alicerce fundamental da solidariedade entre diferentes.

Para a UNESCO a educação tem papel fundamental nesse processo:

É, de algum modo, um novo humanismo que a educação deve ajudar a nascer, com um componente ético essencial, e um grande espaço dedicado ao conhecimento das culturas e dos valores espirituais das diferentes civilizações e ao respeito pelos mesmos para contrabalançar uma globalização em que apenas se observam aspectos econômicos ou tecnicistas.

Ao encarar o pluralismo e a educação multicultural como fundamentais no processo de ensino/aprendizagem, valorizando o patrimônio étnico, os alunos tornam-se capazes de refletir sobre princípios como crença e liberdade religiosas, que influenciam profundamente as visões de mundo de cada grupo.

É importante considerar sempre a visão que a própria comunidade tem de si mesma e sobre o seu próprio patrimônio cultural. Nesse sentido, a educação patrimonial deve ser compreendida como um processo pluridimensional, que ocorre durante toda a vida, e que contribui para a relação dinâmica e não hierárquica entre o universal e o singular, entre o geral e o específico. As ações educativas devem contribuir para que os envolvidos se beneficiem do patrimônio cultural da humanidade, sem perder de vista a importância das suas referências culturais, nas especificidades da história de cada grupo. Com base nisso, uma ação educativa pode ser empreendida de formas diversas, mas, tendo em comum o pressuposto de ser uma oportunidade para apreender e desenvolver os próprios talentos sem desprezar a construção de saberes em relação aos outros.

Ainda usando o exemplo da bandeira da Festa do Divino, uma ação educativa com base nas referências culturais pode ser um meio para auxiliar na decodificação do “outro”, de estabelecer processos de comunicação, que geram a percepção das várias possibilidades de apropriação do patrimônio cultural de maneira crítica.

Fundamentalmente, a partir da compreensão desse objeto integrado à cultura a qual pertence, é possível fomentar a discussão sobre o conhecimento das várias identidades culturais como o princípio para o respeito à diversidade. Caso esse processo de apropriação não ocorra pautado no princípio da realidade social em sua multiplicidade cultural, o projeto corre o risco de cristalizar concepções caricaturadas.

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Autora da Matéria | Colaboradora
Lilian Rodrigues Oliveira Rosa
Historiadora | Centro Universitário Barão de Mauá
Vice Presidente do IPCCIC
Mestrado e Doutorado em História pela Unesp. Pós doutoranda em Administração – Gestão de Políticas Públicas na FEA | USP | RP. Pesquisadora na área de Patrimônio Cultural e Identidades.
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