Os tempos atuais sugerem uma gama infindável de observações quanto à pressa que se estabeleceu na vida de todos nós.

De tanto observar a correria de todos, acabamos por acreditar que também precisamos correr, mesmo sem saber “de que” ou “para que”.

É tanta loucura, que chega a parecer absurdo quando recordarmos o tempo disponível que tínhamos, e não valorizávamos, há poucas décadas atrás.

Como viver nesse mundo do tempo de menos e coisas de mais, sem celular de última geração, computador que caiba na palma da mão, caixa eletrônico de banco, cartão de crédito, motor flexpower, MP3 ou 4, e outros equipamentos essenciais, criados para não se perder tempo.

Quanto é pouco ou muito tempo? É possível imaginar um mundo em que o tempo não fosse um problema?

Os mais novos podem até não acreditar, mas esse mundo já existiu e, como nessa vida nada se cria, tudo se copia, proponho que tentemos a reedição daquele tempo.

Aprendia-se muito com menos horas de aula, mais espaço para se divertir, futebol na rua e não escolinha, com uniforme e horário predefinido. Trabalhava-se o dia todo e ainda era possível se fazer compras e ir ao banco durante o expediente, já que banco e comércio, à exceção da época do Natal, não abriam à noite ou finais de semana. Almoço e jantar eram realizados em casa e em volta da mesa, com toda a família reunida, já que o horário de todos podia ser sincronizado.

Aprendíamos o tempo todo, pois aprendíamos não pela obrigação de vencer na vida, mas porque a característica humana da curiosidade se sobrepunha a tudo. Quem está vivo quer conhecer seus arredores físicos e sociais.

E o sino?

Aquele que sagradamente badalava com todas as forças, quando os ponteiros dividiam o dia em duas fatias iguais: a do antes e a depois.

Como era bom ouvir aquele badalo das seis horas da tarde. Era como um ritual de passagem que conseguia findar a jornada das obrigações dando início à jornada do deleite, da convivência e do “nada a se fazer”. Chegava a hora de se “jogar conversa fora” (aquilo que só joga quem tem de sobra), para se dar espaço para novas e promissoras idéias.

Sei que é sempre mais fácil a busca de paraísos perdidos no passado, e que o difícil sempre está em se descobrir soluções práticas e satisfatórias, para problemas atuais. Sei também, que a expressão “naquele tempo…”, muitas vezes serve de desculpa para os passos que não damos.

Será que de tanto ter que olhar para fora e para frente acabamos por acatar a ordem social de não mais olharmos para dentro?

Adaptando uma frase do educador Celso Vasconcellos, podemos dizer que “muitas vezes, o que estressa não é a sobrecarga do trabalho, mas a falta de sentido do mesmo”. Não é a sobrecarga da vida, mas a falta de sentido em nosso dia a dia.

Ah, quanta falta nos tem feito um badalo ou “chacoalhão” que nos toque e retoque nossos passos.

Hoje muito fazemos, sem saber o porquê de toda essa atividade.

Ninguém mais avisa a hora de parar. Ninguém mais nos lembra, quando é chegada a hora de aproveitar o viver, como uma criança que acorda e dorme brincando, ciente do quanto merece estar bem.

Por favor, não me chame de sonhador. Apenas acredito que se realmente estivéssemos buscando a tão desejada “qualidade de vida”, observaríamos um pouco mais as pessoas e os fatos felizes que muitas vezes estão a nossa volta, porém em embalagens diferentes daquelas que gostaríamos de encontrar.

Observar o mundo em toda e qualquer forma que ele se apresente, sem a preocupação ou necessidade de criticá-lo é um bom começo para aqueles que desejam parar com essa de “não agüento mais” ou “não tenho tempo”.

Instale um sino na varanda de tua casa e, caso esqueça, peça que alguém o badale, para que você seja alertado quando for chegada a hora de viver teu tempo, e não a falta dele.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here