“O ser sustentável do século XXI não diz respeito apenas ao fazer. O ser sustentável do século XXI diz respeito a uma visão de futuro, a um ideal de vida a ser vivenciado agora e no futuro. É uma maneira de ser.” [1] – Marina Silva 

TEMPOS MODERNOS

Estamos em crises. Sim, no plural, já que no contexto contemporâneo da hiper conexão global e do crescimento desenfreado de ameaças à vida no planeta, vivenciamos cotidianamente diversas crises, de vários tamanhos, origens e lugares que influenciam fortemente nossas vidas, mesmo que talvez não consigamos identifica-las imediatamente. Nesse contexto, a parábola da Teoria do Caos, sobre a borboletinha que ao bater asas inconsequentemente de um lado do mundo, acaba por provocar um cataclismo no outro, faz muito sentido.

Paralelamente, “Sustentabilidade” é uma palavra da moda que surge como tábua de salvação.  No entanto, o uso banalizado de um termo como ponto de efeito nos mais variados discursos, não necessariamente reflete o nível de conscientização sobre o mesmo. Tendo a crer que se desejamos mesmo que a humanidade se torne sustentável e que assim a vida na Terra ganhe mais tempo e qualidade, o primeiro passo é aprofundar esse entendimento para poder aplicar o aprendizado na prática com urgência urgentíssima.

Só para localizar um pouco a origem das coisas, o termo Sustentabilidade começou a ser conhecido mesmo a partir da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em 1972, em Estocolmo, e evoluiu ao longo dos anos em vários encontros internacionais, como a famosa ECO 92 do Rio de Janeiro, por exemplo. No entanto, é preciso lembrar que a base dessa teoria já se encontrava na práxis de comunidades ditas “primitivas” há tempos imemoriais!

Ao se definir um sistema sustentável como aquele que deve “suprir as necessidades da geração presente sem afetar a possibilidade das gerações futuras de suprir as suas[2], ou seja, que é preciso garantir, no mínimo, a continuidade de um processo nos mesmos patamares em que o mesmo foi iniciado, pode-se notar que Sustentabilidade não trata apenas de questões ecológicas, como diz o senso comum.  A preocupação é bem maior, mira-se alcançar um sistema complexo de fino equilíbrio.

Para começar qualquer debate sobre o tema, é importante considerar os aspectos que formam o “tripé da sustentabilidade”, três faces que devem se manter o equilíbrio mínimo que se torna o fundamento de qualquer sistema ou ação, ditos sustentáveis: Sustentabilidade Ambiental, Sustentabilidade Social e Sustentabilidade Econômica. Vamos a eles.

 

O TRIPÉ DA SUSTENTABILIDADE

Sustentabilidade Ambiental

Como já mencionei anteriormente, quando se fala em Sustentabilidade, logo se pensa em árvores, animais, águas. Essa limitação não é boa, já que tendemos a nos excluir dessa realidade, como se a Humanidade não fizesse parte ou não estivesse sujeita às cadeias ecológicas e como se as cidades não fossem o nosso meio ambiente mais utilizado! Em suma, é importantíssimo defender a Amazônia e os seres em extinção, por exemplo, mas sem nos esquecermos do nosso bairro e de nossos bichinhos de estimação.

Do macro, ao micro, do curto ao longo prazo, a ideia é primar pela ação de “construir sem destruir ou danificar”, utilizando nossa inteligência para criar e unir as pessoas e instituições em torno de tecnologias e formas de produção limpas para que, assim, possamos reduzir e eliminar impactos ou compensar aquilo que retiramos do Planeta, bem como definir claramente sistemas de controle para tanto.

Sustentabilidade Social             

Nesse aspecto é preciso entender que todas as pessoas têm direito à dignidade, ou seja, não basta garantir sobrevivência aos seres humanos, é necessário nos proporcionar Vida verdadeira e plena, que tem a ver com garantia de condições de geração, manutenção e gozo de direitos para todos, independentemente das diferenças de opinião, etnia, gênero, idade, cultura etc.

A Sustentabilidade Social se alcança quando há uma distribuição igualitária nas possibilidades e alternativas de acesso das posses e bens comuns, para que a distância e a disparidade entre os padrões de vida de ricos e de pobres sejam amenizadas. Se questão fundamental dentro deste aspecto é não permitir que a felicidade de uma pessoa ou grupo seja baseada no sofrimento de outrem, não basta fazer filantropia, é preciso reduzir de verdade os riscos sociais e tornar as pessoas e comunidades capazes de protagonizar suas próprias vidas.

Sustentabilidade Econômica

Diametralmente oposta ao consumismo, ao lucro desenfreado e a outras facetas perversas do Capitalismo, a Sustentabilidade Econômica se alicerça em um conjunto de mudanças de paradigmas que levam obrigatoriamente à reavaliação profunda de valores, desejos e demandas, chegando-se à valorização da lealdade e da justiça nos ambientes competitivos ou até mesmo à consolidação de formas colaborativas, solidárias e criativas de economia, tão eficientes quanto às alternativas tradicionais.

Nesse contexto o resultado final de cada cadeia produtiva é tão importante quando os seus processos de criação, produção, armazenamento, distribuição, consumo e descarte. Seguindo esse raciocínio, o seu objetivo primeiro de cada sistema deve ser a melhoria real de seu próprio patamar de qualidade, já que o desenvolvimento e o progresso passam a ser entendidos como suporte para a realização da existência Humana em diversidade e plenitude.

 

DESDOBRAMENTOS E SUPORTE

No entanto, é praticamente impossível que um sistema seja ao mesmo tempo ambientalmente responsável, socialmente justo e economicamente viável, se não contar com outros aspectos que desdobram e dão suporte ao tripé da sustentabilidade. São eles: Sustentabilidade Cultural, Sustentabilidade Política, Sustentabilidade Ética e Sustentabilidade Estética.

Sustentabilidade Cultural

A Sustentabilidade Cultural se baseia no respeito e na promoção da diversidade. Para tanto, funcionam muito bem os preceitos de Paulo Freire, sobretudo a valorização da escuta e a partilha ou construção de conhecimento a partir da interação verdadeira entre as partes. Longe de ser entendida como puro entretenimento ou nostalgia, a Cultura retoma seu lugar na estruturação de identidades, fortalece as comunidades e vai além, estabelecendo-se como ativo econômico e fator de garantia para a manutenção ecológica.

As tradições são compreendidas como repertório base para a inovação que, de acordo com Marina Silva, não prospera na “mesmice”. Paralelamente, a inovação cultural vem acompanhada da proteção das memórias e saberes de cada grupo, em um processo dinâmico em que se aproveita o melhor de cada situação, local ou global, para fortalecer as comunidades.

Sustentabilidade Política

A Sustentabilidade Política parte do respeito e da mediação de conflitos para a formação e manutenção de espaços de convergência, onde não vale o voto da maioria, mas o movimento conjunto e dialético de ideias que leva ao consenso.  Nesse aspecto, o valor das relações se dá pelo trabalho em rede, onde as lideranças se estabelecem na medida de agregar pessoas e saberes, promovendo fluxos de conhecimento e de diluição de poder.

Com o desenvolvimento de mecanismos de democracia participativa,  valorização do trabalho voluntário e da educação para a cidadania, busca-se eliminar o tradicional clientelismo e incentivar grupos e indivíduos a formarem vínculos de afinidade genuínos com projetos políticos macro e micro. Paralelamente, atuando dessa forma, força-se que os operadores da política cada vez mais inclinem suas agendas para as temáticas da sustentabilidade.

Sustentabilidade Ética

A profundidade da discussão do conceito de Ética pode ser resumida nos termos da Sustentabilidade a partir da definição deste termo, ou seja, a Sustentabilidade Ética firma o compromisso com a vida das populações atuais e com as novas gerações que ainda nem nasceram, estabelecendo a obrigatoriedade de criação e fortalecimento de alianças inter-geracionais para a preservação dos recursos existentes em busca de proteger o planeta e consequentemente, a manutenção da espécie humana. O Manifesto pela Vida[3] afirma que “A ética da sustentabilidade coloca a vida acima do interesse econômico-político ou prático-instrumental (…). A preservação do ciclo permanente da vida implica saber manejar o tempo para que a Terra se renove e a vida floresça em todas suas formas convivendo em harmonia com os modos de vida das pessoas e as culturas.”

Ao se observar a valorização da qualidade e da dignidade de cada etapa do ciclo da Vida de cada ser do planeta, nota-se que a adoção plena da cultura da Paz[4] torna-se uma condição básica da Sustentabilidade.
Sustentabilidade Estética

Um dos diferenciais mais importantes dos seres humanos é a sua capacidade de reconhecer, produzir e valorizar símbolos.  A questão estética plasma o capital simbólico de uma comunidade, fundindo-o aos outros aspectos envolvidos na complexidade da Sustentabilidade e pode ser considerada desde a construção de uma residência, até o planejamento de toda uma cidade.

Pode-se afirmar que construção a partir do planejamento conjunto e por consenso de espaços públicos (ou  mesmo privados) a partir da valorização de seus significados é o que define a Sustentabilidade Estética. A “beleza” não está apenas nas formas, mas também nas funções, usos e interpretações possíveis de cada lugar.

 

FINALIZANDO

Ao se analisar uma situação existente ou se planejar algo novo no âmbito da Sustentabilidade é importante ter clareza na articulação dos pilares aqui citados. Parece-me claro que o caminho para a Sustentabilidade se faz caminhando e que apenas o exercício de alcança-la já fará grande diferença para a vida no planeta e para as relações humanas mais imediatas.  Tudo ainda pode se tornar menos tortuoso ou no mínimo mais legítimo, se houver engajamento de mais gente em cada sistema proposto. Quanto mais as pessoas se reconhecerem em  uma aliança inter-geracional  e conduzirem um processo de comunicação pacífico a partir de um sentimento crescente de pertencimento a um projeto, causa ou comunidade, mais ânimo teremos para chegar a um universo  ecologicamente responsável, socialmente justo, economicamente viável, culturalmente diverso, politicamente colaborativo, eticamente engajado e esteticamente comprometido. Tudo ao mesmo tempo e para sempre!

[1] SILVA, Marina in EXAME Fórum de Sustentabilidade – 2011. Documento digital acessado em 23 JUN 2015, disponível em: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/marina-silva-aponta-7-pilares-sustentabilidade-645296.shtml
[2] Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Nosso futuro comum (Relatório de Brundtland, 1987) 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1991.
[3] Manifesto pela Vida, por uma ética para a Sustentabilidade. São Paulo, 2002. Documento digital acessado em 23 Jun 2015, disponível em: http://www.mma.gov.br/estruturas/educamb/_arquivos/manifestovida.pdf
[4] Carta da Terra. Haia, 2000. Documento digital acessado em 23 Jun 2015, disponível em: http://www.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/agenda-21/carta-da-terra
os sete pilares da sustentabilidade Divagações sobre os Sete Pilares da Sustentabilidade papa
Autor da Matéria | Colaborador
Marcos Papa
Marcos Papa, nascido em Ribeirão Preto, atualmente com 49 anos, é presidente da Unificação Kardecista de Ribeirão Preto e membro do conselho deliberativo da Casa do Vovô.
É líder RAPS – Rede de Ação Política Pela Sustentabilidade. Bacharel em Direito, foi gerente comercial da Duracell e da Gillette do Brasil. Quando Gerente Executivo FIPASE – Fundação Instituto Polo Avançado da Saúde de Ribeirão Preto, estruturou o convênio entre USP, Estado e Prefeitura, com o apoio da FINEP, do MCT e da FAPESP para a construção do Supera Parque de Inovação e Tecnologia e liderou a implantação do MEI – Micro Empreendedor Individual em parceria com o SEBRAE, ACI, SINCOVARP e Casa do Contabilista. Eleito vereador em 2012 com 4.941 votos, por seu comprometimento com a democracia participativa, com a ética e a transparência na vida pública, tem se firmado no Parlamento pela independência, pela oposição construtiva e por suas ações efetivas em favor do desenvolvimento de Ribeirão Preto como cidade sustentável e criativa. É um dos 100 membros fundadores da Rede Sustentabilidade no Brasil.
Eleito em 2012, com 4.941 votos, é um dos membros fundadores da #Rede Sustentabilidade e líder RAPS – Rede de Ação Política pela Sustentabilidade. Sua atuação parlamentar tem sido marcada por seu comprometimento com a democracia participativa, com a ética e a transparência na política. Tem se afirmado pela independência e por ações efetivas a favor do desenvolvimento de Ribeirão Preto como cidade sustentável e criativa.

Site Próprio
os sete pilares da sustentabilidade Divagações sobre os Sete Pilares da Sustentabilidade email
os sete pilares da sustentabilidade Divagações sobre os Sete Pilares da Sustentabilidade face
os sete pilares da sustentabilidade Divagações sobre os Sete Pilares da Sustentabilidade twitter

SEJA UM COLUNISTA
SEJA UM COLABORADOR
CONHEÇA NOSSO TIME

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here