Ser esquerdista foi quase tão natural e previsível para mim quanto gostar de jogar bola e odiar matemática. O Pasquim era praticamente minha Bíblia e quando a família viajava para alguma praia levar “Os carbonários” do Alfredo Sirkis, “Lamarca – O capitão da guerrilha” de Emiliano José e Oldack Miranda (com a bela capa de Elifas Andreato) ou “O que é isso companheiro?” do Gabeira para dar alguns exemplos era tão essencial na bagagem quanto a pranchinha de isopor para pegar “jacaré”.

Sim claro, também tinha a MAD. O anarquismo maluco de Aragonés, Al Jafee e Cia também tinha lugar de honra na prateleira dos fazedores de cabeça. Com 16 anos, em 1980, a pequena glória do aspirante a derrubar governos com a caneta nanquim: o convite para colaborar em publicações sindicais!

Como já havia decidido levar à sério esse negócio de desenho achei que seria justo somar o orgulho de estar contribuindo para a luta do proletariado com uma remuneração, mesmo que quase simbólica. Ahh se vocês vissem as expressões dos já naturalmente carrancudos sindicalistas quando mencionei o cascaio…soubesse eu o que sei hoje sobre a dinheirama que flui nessas entranhas. Mas fiquei me sentindo o próprio Henfil por fazer parte dessa luta, companheiros.

Publicava minha charge no O DIÁRIO, mandava ver nas publicações dos metalúrgicos e dos bancários e para mim, o píncaro dos píncaros, participei do Salão de Piracicaba com duas charges, uma do Sarney com militares, sim, eu achava que militava.

Na campanha das DIRETAS JÁ fiz camisetas pintadas à mão para VENDER no comício, um deputado local pediu para eu jogar uma pra ele na faixa lá em cima do palanque. Nananina. Olha o porco capitalista dando as caras de novo aí.

Pulamos para eleição Collor/Lula. Chorei e cantei “lulá-la” abraçado à amigos. Foi bonito de se ver.

Pc Farias, madame Rosane, Fiat Elba, motorista Eriberto, PT-Folha-Veja unidos e coesos nas denúncias em cascatas da Dinda. Zé Dirceu afinadíssimo passando informações para os golpistas.

Caras pintadas, Fora caçador de marajá!, Impicho nele! Eu de luto e na luta na Nove de julho. Mais uma vez foi bonito de se ver.

Confesso que as charges que fiz do Itamar me doem um pouco hoje na lembrança. Topete, modelo sem calcinha, fusca, a província de Juiz de Fora…morreu tendo sido presidente do Brasil e sem estar milionário, merecia ser canonizado.

Lula x FHC. Mais uma vez eu lá de lula lá. Não deu.

Das charges desse presida não me arrependo. Serjão comandando a compra de votos para reeleição mostrava que o tucanato não tinha nada de sofisticado. Fiz uma do Covas para Revide que ficou bem “manêra”…

Política local agora. Palocci do PT eleito em Ribeirão, terra dos feudos radialistas lavou a nossa alma, finalmente entrávamos na civilização moderna!! Teve churrasco da vitória para militantes e simpatizantes. Compareci, é claro. O primeiro ruído incômodo. Segue.

Embalado por chopp, democracia e mulheres sorridentes ao redor dei vazão ao meu lado stand-up de imitador: Jânio, Maluf, Jábali e o pãovinho…gargalhadas daquela gente livre, anárquica, sem preconceitos e  libertária. Até que fiz o Lula. Só a voz. Com “texto” pré Bumlai, até enaltecendo o metalúrgico que chegou lá.

Ninguém achou graça. Silêncio sepulcral. Olhares de reprovação. Rodinha espalhada. Deu um “arrepiozinho” na espinha. Uai, tô só brincando gente! Não pode, com ele não.

Talvez tenha começado ali a germinação do reaça que viria.

Finalmente Lula vira nosso líder! Achei legal o presida THC disponibilizar tudo e todos na transição mas precisávamos mesmo desconstruir tudo que tinha sido feito sob o manto da herança maldita, fazia parte do “processo”…

Lulão na bancada do JN foi demais!! Arrepiou todos.

Mas peraí gente, quem são essas pessoas ali na foto: Calheiros, Barbalho, Sarney, Geddel, Jucá, Lobão…COLLOR!!!!!!!!

Numa festa com amigos comento a estranheza dessas alianças, sou duramente repreendido: É assim mesmo caramba! Começava a surgir o termo “moralista” para as inquietações envolvendo grana suja, o gremlins reacinha começava a ficar úmido…

E chegamos ao fatídico dia: O Dia Em Que Virei Um Reaça.

Foi quando publiquei a primeira charge contra o Lula.

Ali não tinha mais volta. Pouco importava o que já tinha feito ou faria depois. EU ERA UM REAÇA.

O código de barras foi impresso na testa. Junto com o rótulo infame vieram uma cacetada de adendos: preconceituoso, racista, homofóbico, tucano, moralista, elitista…afinal, eu tinha feito críticas ao Lula.

Hoje já dói menos. Tenho um queridaço amigo, sim, o GTO que me chama carinhosamente de Reaça Andrade, acho fofo.

Não queria Temer nem impeachment. Por mim teria deixado dona Dilma finalizar sua tragédia. Vendo o que se desenha hoje acredito que a maioria dos petistas lá no fundo sente certo alívio pelo “golpe”. Aquele que não pode ser zoado pode voltar com tudo como salvador da pútrida pátria.

Se eu ainda tiver alguma voz, mesmo que em fiapos, farei outras charges. Um reaça não esmorece nunca.

 


Colunista: Renato Andrade Vieira

  • Renato Andrade Vieira
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Renato Andrade Vieira
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Sou cartunista, ilustrador, artista plástico, escritor e dublador de desenho animado. Gosto de inventar histórias para meus filhos Theo e Lino, adoro café e João Gilberto. Atualmente sou chargista do jornal A CIDADE de ribeirão preto-SP.
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