Que há uma distância entre o ensino básico das escolas públicas e particulares no Brasil, isso todos sabem – embora alunos de escola pública frequentemente escutem, e dos melhores professores, que essa distância não é real; que em verdade não há diferença entre ambos. Só que, ironicamente, os filhos desses professores estudam todos nas escolas particulares. Não obstante, se aqui no país os filhos da elite da mais alta hierarquia – os filhos dos deputados, por exemplo – frequentassem a escola pública, a qualidade de seu ensino se multiplicaria em diversas vezes. Mas, infelizmente, a elite brasileira gosta de um espaço segregado, pois antigamente, quando as pessoas de baixa renda não estudavam (porque tinham de trabalhar), a classe alta então estudava nas escolas públicas. Porém, com o advento de algumas políticas que passaram a contemplar um pouco mais os socioeconomicamente carentes, incluindo a aquisição da educação, esses passaram então a estudar nas escolas públicas e os mais abastados se transportaram às escolas privadas. E assim nasceu a desigualdade educativa atual.

A realidade de uma pessoa menos abastada é muito diferente da realidade de uma pessoa da elite. Especialmente em questão de cultura, pode-se dizer – pois hoje temos a classe C, que ascendeu ao consumismo, mas não à educação. Um exemplo simples, porém relevante: uma criança em um ambiente familiar que geralmente teve pouca ou nenhuma escolaridade não vai se interessar por cultura, pois não receberá incentivos da família que não tem o hábito da leitura, por exemplo. Diferentemente de uma criança em um ambiente familiar que teve maior escolaridade.

Contudo, independentemente do nível socioeconômico das novas gerações, ainda temos no Brasil uma cultura de excessiva valorização à rebeldia – e não necessariamente à cidadania ou à ética. As maiores vítimas de bullying são os alunos mais estudiosos e “certinhos”, não os arteiros. Estes últimos, aliás, são mais valorizados pelos colegas. E isso muitas vezes afasta o aluno de um possível envolvimento maior com o prazer pelo aprendizado, pois ignorar o conhecimento o torna no geral mais popular. Seria necessário, portanto, não somente uma reforma em nosso currículo escolar ou no sistema educacional como um todo. É necessária, também, uma revolução comportamental, que englobe novos valores.

O mais triste, entretanto, é observar alunos de escolas públicas terminando o Ensino Médio sem praticamente grandes ambições em continuar no Ensino Superior. Pois eles não sabem que as melhores universidades do país são públicas, não conhecem as cotas ou bônus às quais têm direito, não sabem como funcionam os sistemas de ingresso e nem têm muitos estímulos a fazerem o Enem. Assim, concluem o Ensino Médio. E vão fazer outra coisa.

Ou seja, eles precisam de mais informações. E as escolas têm de incentivá-los mais. Claro que há no país, orgulhosamente, escolas públicas de excelência, no nível das maiores particulares. Mas ainda são muito poucas. E as escolas privadas igualmente necessitam de uma boa reforma, pois as escolas públicas da Europa, por exemplo, são melhores que todas as particulares brasileiras. No momento em que o governo parar de jogar todo o dinheiro no Ensino Superior, e começar a investi-lo no ensino básico, o país então de fato poderá vir a sentir o que é desenvolvimento.

 

 

Ellen Cristina Masalskas a desigualdade na educação A desigualdade na educação caroline
Autor da Matéria | Colaborador
Caroline Fortunato
Letras/ Línguas/ Literatura
Caroline Fortunato é do interior do estado de São Paulo, tendo sempre estudado em escolas públicas, em Etec (Escola Técnica Estadual) e, atualmente, se encontra na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Está se preparando para dar aulas em cursinhos pré-vestibulares comunitários bem como em escolas públicas.
Tendo por vício livros e conhecimento, enxerga na educação a principal sustentação à qualidade do Brasil, e é por isso que ela deve passar por uma significativa e pensada reforma em urgência, pois o povo brasileiro dignamente merece, assim como o próprio país.
a desigualdade na educação A desigualdade na educação email
a desigualdade na educação A desigualdade na educação face

SEJA UM COLUNISTA
SEJA UM COLABORADOR
CONHEÇA NOSSO TIME

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here