Quem o observou descendo as escadas do avião, deduziu que suas pernas não eram suficientes para pôr em movimento o que se passava dentro dele. As pernas eram curtas, verdade, mas o fato se daria mesmo se, no lugar dos membros, houvesse rodas de trator.

Horas antes, a voz do pai pulou das nuvens que passeavam a poucos metros da cabeça de Demétrio, encostada à janela oval. Você precisa estudar, meu filho. Só homem culto carrega respeito. Como você e a mamãe vão conseguir sem mim? A gente se desdobra e a colheita sai, não se preocupa. Pai, eu não quero ir! A vontade pouco pode contra a força. Duas semanas depois, o menino de treze anos viajava para São Paulo. Até completar dezoito, moraria na casa de uma prima de segundo grau da mãe. É bem provável que a partida de Demétrio estivesse há meses plantada na cabeça do velho, talvez anos, já que o dinheiro para o ônibus não cabia nos bolsos do dia-a-dia.

– Doutor Demétrio, os documentos a serem assinados.

– Sobre?

– Aquela reintegração de posse. O advogado precisa do seu parecer pra retirar os sem-terra da Fazenda Santa Maria. Ah, e chegou esta carta pro senhor.

Leu as linhas feito alguém que devora a comida que não vê há dias. Antes, porém, de refletir sobre o teor da carta, perguntou-se: Senhor? A palavra, empregada a ele milhares de vezes, agora arranhou seus tímpanos. Desde quando sou senhor? Com o papel entre os dedos, expirou como se arrancasse dos pulmões a metade mais recente da vida. E se pôs a reler cada sentença.

Demétrio, querido, é uma bênção a quantia que você manda pra nós todo mês. Mas nem sempre o dinheiro aduba a vida, você sabe. Nossa terra está seca, muito seca, não cresce nada por aqui além de carrapicho. Mas seca mesmo está minha alma. Não demora, seu pai vai abraçar sua avó e seu avô. De vez. Enquanto isso, todo dinheiro é pra manter ele vivo na cama. Uma planta, porém uma planta viva. Ao menos uma temos aqui (só zombando pra dar conta da desgraça)! Por falar nela, faz uns anos que o Senhor está esquecido da gente. Não reclamo: Ele não dá pra nós, mas compensa com você. O que mais pode querer uma mãe?

A letra de Sofia era conhecida de Demétrio. Há vinte e dois anos. A mãe segurava na memória a fileira de palavras e soltava pela boca devagarinho para que a mulher gravasse seus sentimentos no papel. Mas nos últimos tempos as mensagens rareavam: era a primeira carta em três anos.

Por que não me escreveram antes? Anotou a pergunta, mas, empurrado pela vergonha, rabiscou a frase até quase perfurar o papel.

Chegou do trabalho, tomou banho e se deitou. Entretanto, a cama se mostrava pouco afável. Rolou por algumas horas, até que ligou o notebook e comprou uma passagem aérea para a manhã que se aproximava.

Para os pais, era um milagre. Para Demétrio, matéria de admiração: como o menino de oito anos não via chuva com frequência, seus olhos abraçaram cada gota que caía do céu. E a água descente era também brinquedo: pulou a janela da sala, saiu correndo em círculos e parou com a boca aberta para cima. Enchia a boca e se abaixava para cuspir, como se contribuísse para o regar do solo. A terra está rindo pra gente, mamãe! Os pais, enternecidos da porta da cozinha, só olharam. O menino foi a eles e, pelas mãos, os levou para o quintal: pai, mãe e filho numa dança de agradecimento, rito tão intenso que sequer o sol, senhor daquela região, teve coragem de atrapalhar.

– Táxi!

Naquela tarde, parecia dilatado o caminho à pequena fazenda. Homem, aperta o pé! De que maneira nessa terra esburacada, doutor? Demétrio queria enfiar vinte e dois anos na hora e meia que faltava para abrir a porteira. Queria estancar as ideias negras que vazavam pela atenção. Queria colocar os pais no colo. Queria acariciar os cabelos que deviam estar menos volumosos e mais brancos.

– Sabia que Demétrio tem a ver com terra?

Ele abriu os olhos e virou a cabeça como se desgrudasse o sono do travesseiro. Com o hálito do dia anterior, balbuciou qualquer coisa.

– Seu nome. É uma derivação da deusa grega do cultivo, da fertilidade.

Não desconfiava que a mulher nua ao seu lado era versada em onomástica. Aliás, pouco sabia sobre ela. E pouco queria saber. Colou na cara uma feição de interesse e a puxou para cima do seu desejo recém-acordado.

No táxi, as palavras da estrangeira voltaram feito flecha no ouvido. Como os velhos podiam saber disso? A pergunta destrancou uma gaveta e, dela, saltou uma imagem empoeirada: o menino de seis anos escutava a mãe contar à madrinha que o filho não nascia de jeito nenhum. Ele lutava e não saía, comadre! Aí a parteira pediu que eu fizesse uma promessa pro padroeiro dos guerreiros, São Demétrio.

Que guerreiro de merda sou eu? Um engenheiro agrícola de 36 anos, sem herdeiros ou amores. E com a culpa de a mãe não ter podido mais engravidar. A língua reagiu ao pensamento:

– Acelera essa porra!

Desceu do carro, abriu a porteira com a dificuldade peculiar a quem não tem prática e correu. A mala, um pêndulo de chumbo. Sobre o capacho que desejava boas-vindas, gritou pelos pais. O que chegava aos olhos, agredia a esperança. Mas ele se agarrava àquele fiapo esverdeado: vasculhou cada cômodo, gritou mais e mais até se conformar com a resposta da casa: um silêncio gelado.

Assim que abriu a porta dos fundos, que dava para a antiga horta, a cena se impôs inteira e as pernas não mais lhe pertenceram: a mãe, com a mão direita a apertar um frasco de raticida, estava deitada ao lado de um montinho de terra que ostentava uma cruz na extremidade superior, duas lascas de madeira presas por um pano: estampa florida parecida à do vestido que ela usava no dia da partida dele. Do outro lado da velha, uma vala aberta e a cruz no fundo, idêntica à fincada no montinho de terra que cobria o corpo do pai.

Do rosto imóvel da mãe, pele e chão compartilhando rugas, saltou a justificativa: não fique triste. Fomos para um lugar melhor, Demétrio. Soco no estômago imaginar a mãe pronunciando seu nome: o homem desmoronou. Alguns minutos depois, tirou da carteira o documento de identidade. E, apesar dos olhos encharcados, tentou encontrar semelhanças entre fotografia, nome escrito e assinatura. Tentou.


Colunista: Matheus Arcaro

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Matheus Arcaro
Colunista

Professor de Filosofia e Escritor.
Matheus Arcaro nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. Graduado em Comunicação Social e também em Filosofia. Pós-graduado em História da Arte. Atua como professor de Filosofia e Sociologia, artista plástico e palestrante. Desde 2006 tem artigos, crônicas, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Seu livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, publicado em 2014 pela Patuá, vem recebendo ótima crítica em âmbito nacional. Seu romance será publicado em 2016.

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