Certa vez um renomado orador romano, chamado Cícero, teve de fazer a defesa do poeta Árquias, seu antigo mestre, que foi acusado injustamente de ter obtido a cidadania romana de maneira imprópria. A defesa que Cícero fez de Árquias acabou se transformando também em uma bela defesa da arte literária.

Em uma das falas mais marcantes de seu texto, Cícero defende que os outros estudos “nem são de todas as ocasiões, nem de todas as idades, nem de todos os lugares, ao passo que estes estudos nutrem a juventude, distraem a velhice, realçam os momentos felizes, propiciam refúgio e conforto nos infelizes, deleitam-nos em casa, não nos estorvam na rua, dormem conosco, conosco viajam, acompanham-nos no campo”.

O discurso completo de Cícero elenca pontos que bem mais tarde foram levantados por outro defensor da Literatura, o crítico literário Antonio Candido. Ambos defendem que essa matéria é essencial para a sociedade, e pensando nisso falaremos aqui da importância de seu ensino na escola.

O primeiro ponto importante da Literatura a ser destacado é o que Cícero chama de “aprendizagem e cultivo da virtude”, ou o que Antonio Candido descreve como a força humanizadora da literatura: “algo que exprime o homem e depois atua na própria formação do homem”. Ou seja, a Literatura, somada a outros fatores, como as experiências vividas ou os valores passados pela família, pode ser elemento para a formação do caráter de uma pessoa, isso porque a leitura também é uma forma de conhecer e tentar entender o mundo, ajudando-nos em nossos julgamentos e posturas.

“…os professores recomendam a leitura de “livros que caem no vestibular”, que não deixam de ser textos importantes …porém que acabam se tornando uma obrigação para os alunos, o que os leva a ter pensamentos como “que chato ler isso”, “para que vou ler isso?”, ou “não entendo nada que esse livro diz”…”

Antonio Candido ressalta um segundo ponto importante: a Literatura ensina também através de “altos e baixos” e de “luzes e sombras”, ou seja, mostra as consequências boas e ruins das ações humanas, o que demonstra como essa arte é importante para a indução de compreensões múltiplas e complexas.

O terceiro ponto é a função psicológica da literatura, ou seja, a de satisfazer a necessidade humana de fantasia (ou o “simples deleite”, conforme Cícero). A distração por meio da arte literária pode ser feita da juventude à velhice, como Cícero fala em seu discurso, e no caso específico dos livros, em qualquer hora e lugar para onde carreguemos um exemplar, seja impresso ou digital.

Considerando o que foi dito sobre a importância da Literatura para a formação e satisfação dos indivíduos, entendemos um pouco melhor o valor do ensino dessa matéria na escola. Apesar disso, uma pesquisa chamada “O que pensam os jovens de baixa renda sobre a escola”, publicada na revista Nova Escola em uma edição especial de setembro de 2013, mostra que, no que se refere à Literatura, apenas 19,1% dos jovens entrevistados consideram útil para suas vidas o conteúdo aprendido na disciplina.

Por que o desinteresse pela disciplina? Será que a maneira como o texto literário é trabalhado na escola forma leitores críticos? Por que os alunos não se identificam com os clássicos da Literatura Brasileira? Muita discussão existe sobre o assunto em busca de respostas de como deve ser conduzido o ensino de Literatura na escola.

A Literatura, em muitas escolas, é ensinada dentro das aulas de Língua Portuguesa, e apenas no Ensino Médio costuma-se separar as duas disciplinas. A abordagem do conteúdo geralmente implica em usar o texto literário para exemplificar e apoiar exercícios gramaticais ou, como afirmam Rosivaldo Gomes e Josenir Silva, o professor separa “fragmentos de textos literários para serem lidos, compreendidos e interpretados”, o que leva os alunos a terem contato descontextualizado com as obras literárias.

O contato com o texto literário muitas vezes se dá apenas pelos trechos trazidos no material didático, ou seja, os alunos não querem ou não se motivam a ler de fato o livro. Isso se torna um problema porque os alunos não desenvolvem seu potencial de leitor, já que não adquirem o hábito de ler e de, consequentemente, interpretar criticamente o texto.

Uma prática de ensino muito comum é a abordagem da Literatura por um viés histórico, apresentando características de movimentos literários e buscando textos que corroborem tais características, mas muitas vezes essa densidade de informação não contribui para a humanização que a leitura do livro em si pode gerar, e tampouco contribui para a apreciação do texto.

Muitas vezes os livros, especialmente os mais clássicos, trazem uma linguagem distante daquela usada pelos alunos; justamente porque eles estão poucos acostumados a ler, desconhecem palavras, expressões ou técnicas de linguagem que enriquecem o texto.

Quando chega a hora de interpretar o que leram, os alunos geralmente são obrigados a acatar a interpretação trazida pelo professor e pelos materiais didáticos. Além do mais, se veem obrigados a responder questões técnicas em que não há espaço para se posicionarem ou demonstrarem se gostaram ou não da leitura, o que aprenderam com ela, ou como ela os impactou.

Preocupante também é o fato de o currículo de disciplinas, especialmente no Ensino Médio, ser moldado por materiais didáticos, sistemas apostilados e vestibulares de universidades públicas. A Literatura não escapa disso. Na grande maioria das escolas os professores recomendam a leitura de “livros que caem no vestibular”, que não deixam de ser textos importantes e imprescindíveis para se entender a cultura e formar cidadãos, porém que acabam se tornando uma obrigação para os alunos, o que os leva a ter pensamentos como “que chato ler isso”, “para que vou ler isso?”, ou “não entendo nada que esse livro diz”.

Talvez essas sejam algumas das razões pela qual o aluno sente que Literatura é conteúdo inútil para sua vida. Enquanto a preocupação for apenas de saber identificar a qual movimento literário pertence cada texto, ou como uma frase de um livro antigo é um ótimo exemplo de uso gramatical (e muitas vezes antiquado) da língua, o aluno ficará entediado.

A escola e o professor que vivenciam as situações discutidas aqui precisam rever a maneira de abordar a Literatura para passar a ensinar seus alunos a aprenderem com o texto, a enxergá-lo como uma fonte rica de aprendizagem e conhecimento, usando os livros como instrumentos de formação de caráter e entendimento de mundo. Além disso, despertar no aluno o prazer pela leitura é fundamental, já que a Literatura ajuda não só com o conhecimento, mas também nos momentos de distração e entretenimento.


 Referências
  • Antonio Candido, “A literatura e a formação do homem” – Textos de Intervenção. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • Cícero, Em defesa do poeta Árquias. Tradução para o português de Maria Isabel Rebelo Gonçalves. Lisboa: Editorial Inquérito, 1986.
  • Rosivaldo Gomes e Josenir S. Silva, “O ensino de Literatura e a formação de leitores literários: o que dizem os PCN e as Orientações Curriculares para o Ensino Médio” – Estudos em Educação e Linguagem, 1, n. 1, 2011.
  • Revista Nova Escola, “O que pensam os jovens de baixa renda sobre a escola”. Edição Especial no. 15, set/2013.
Gabriela Morandini Em defesa do ensino de Literatura Em defesa do ensino de Literatura gabriela
Autora da Matéria | Colaboradora
Gabriela Morandini
Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, trabalha como analista de projetos educacionais e como revisora autônoma de textos literários e acadêmicos. Por hobby, viaja para praticar ora inglês, ora espanhol, ora francês… e escreve sobre suas viagens.
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