Em 1995 fiz parte da organização de um Simpósio sobre Literatura que convidou para palestrar, o psicólogo e escritor Jacob Pinheiro Goldberg. Outros estavam entre eles, mas só lembro do que ele disse, isso porque, sigo impactada pelo seu discurso até hoje, 19 anos depois.Não sei se ele foi o primeiro a falar, mas assim que ele falou eu mudei. Goldberg contou que quando Vladimir Maiakovski se suicidou, Ernest Hemingway foi convidado a comentar o ocorrido em um grande jornal. Ele teria dito que se na cabeceira da cama de Maiakovski tivesse uma folha de papel e um lápis no lugar de um revolver, ele teria escrito um poema e não se suicidado.

Aquela frase ressoou por anos na minha cabeça. Em 2000 trabalhei por adesão em uma eleição de um candidato a chefe do Executivo e convenci a equipe a adotar o tema Cultura e Educação: pela política do lápis e do papel. Usamos o conceito do antagonismo entre o revolver e a cultura. Ele não foi eleito, nem acho que o conceito conseguiu ser propagado, mas foi um primeiro momento em que me concentrei em pensar a cidade a partir da cultura.

Com o tempo, estudando a vida e a obra de Maiakovski e Hemingway, constatei que o segundo também tinha se suicidado, eliminando um pouco a magia da história que eu repetia a cada momento oportuno. Mas costumo dizer que também a ele faltou um lápis e um papel. Ainda que não seja bem assim. Quanto a Maiakovski, afirmam que ele se suicidou por amor, já Hemingway por falta dele, provocado por doenças que o consumiam.

No final, abandonei a história e guardei o conceito, que na verdade já os tinha desde muito jovem. Em 2013, convidada a participar de um TEDx para falar sobre o trabalho do IPCCIC – Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais, a favor das cidades, sob o título “Um olhar para dentro”, frase que encontrei exatamente assim, um tempo depois, no livro de Otto Scharmer, autor da Teoria U. Naquele TED, afirmei que somos versão mais bem elaborada de nós mesmos. O que não significa constância do passado, longe disso, significa que crescemos, simplesmente que crescemos e que vamos nos elaborando melhor, quando temos chance, é claro. Pois é certo de que nem todos tem. Falhas irreparáveis em nosso modelo de sociedade. Todos deveríamos ter. Lembrem que Platão disse: “de qualquer modo temos que dar a cada criança, e desde o início, uma igualdade total de oportunidade educacional. Não há maneira de se saber onde surgirá a luz do talento ou do gênio. Temos que procurá-la imparcialmente em todas as classes e raças. O primeiro marco de nossa estrada é a educação universal”.

Um dia entrevistei o jornalista Gilberto Dimenstein, fundador do projeto Escola Aprendiz e pedi que falasse sobre violência na escola e na sociedade e ele disse que não permitir que os jovens tenham sonho é uma violência, não permitir que eles possam se aprimorar é uma violência. E é isso. Todos deveriam poder viver para se aprimorarem. O que não acontece.
Para finalmente ilustrar o que significa a versão mais elaborada de nós mesmos, em 1985, com 15 anos, era membro de uma entidade chamada Aja – Associação dos Jovens Artistas e, como tal, fui para Brasília participar de uma reunião da subcomissão de Educação e Cultura da Constituinte. O congresso brasileiro estava elaborando a nossa nova Carta Magna. De alguma maneira acabei compondo a mesa de debates, minha pouca idade tinha impressionado alguns. Quando fiz uso da palavra, há 29 anos, meu discurso era o mesmo de hoje: mais cultura. Estou obsoleta? Acredito que não. Foram as coisas que em 29 anos ainda não mudaram a contento.

Estudei Educação por oito anos para me certificar de que eu ainda pensava a mesma coisa. É preciso mais cultura. O processo educacional se mecanizou de tal forma, que ele, por si só, ainda que de boa qualidade, não é suficiente para a necessária mudança pela conscientização, tão aclamada. Não conseguirei avançar se o leitor estiver lendo cultura em uma de suas concepções. Para a compreensão se estabelecer é necessário expandir este universo para uma leitura de todas as suas concepções possíveis. Neste caso, o poeta Ferreira Gullar pode ajudar com sua célebre frase: “A arte existe porque a vida não basta”. Não sei como o poeta define arte, mas eu me apodero de sua frase para pactuar que a vida pede cultura para fazer sentido. Affonso Romano Sant’anna disse em uma palestra em que estava na plateia que “tudo que não é natural é cultural”.

A educação sem cultura ensina conteúdo, a educação com cultura faz sentir e dá sentido. Não acredito em conscientização sem emoção. É o sentimento que nos conscientiza. É a dor e a felicidade de se ter ou de se perder que nos faz agir conscientemente. O que significa afirmar que educar para a mudança por um futuro feliz implica em propiciar emoções?

Uma passagem no livro “O mundo de Sofia”, de Jostein Gaarden é reveladora em relação a como a escola deveria agir. E outra passagem, no mesmo livro, é avassaladora em mostrar como ela age. Vou usar as duas para me ajudar a seguir.

Gaardem escreveu que “certa manhã, mamãe, papai e o pequeno Thomas – a esta altura já com dois ou três anos – estão sentados na cozinha tomando café. De repente, mamãe se levanta, vira-se para a pia e então… bem, então papai começa a flutuar sob o teto da cozinha. O que você acha que Thomas diria? Talvez ele apontasse o dedo para seu pai e dissesse: “Papai voando”!

Na certa Thomas ficaria espantado, mas ficar espantado não é novidade para ele. Afinal, o papai faz tantas coisas estranhas que, a seus olhos, um pequeno vôo sobre a mesa do café da manhã não faz lá muita diferença. Todos os dias, por exemplo, seu pai faz a barba com um aparelhinho esquisito, às vezes sobe no telhado e vira a antena da TV, outras vezes enfia a cabeça no compartimento do motor do carro e sai com a cara toda preta lá de dentro.
Agora é a vez da mamãe. Ela ouviu o que Thomas disse e vira-se resoluta. Como você acha que ela reagiria à visão de seu marido voando sobre a mesa da cozinha?
Na mesma hora ela deixa cair o vidro de geleia e solta um grito de pavor. Talvez ela até precise de um médico, depois que papai voltar a sentar-se em sua cadeira. (Há muito tempo ele deveria ter aprendido a se comportar à mesa!).É uma questão de hábito. (Grave bem isso!). Mamãe aprendeu que as pessoa não podem voar. Thomaz não. Ele ainda não tem muita certeza do que é possível e do que não é possível neste mundo.

Para mim, esta singela criação literária é a metáfora perfeita para ilustrar o que Scharmer chama de disrupção do passado e abertura para deixar vir o futuro que emerge. Ele enfatiza a necessidade de mantermos a mente, o coração e a vontade abertos para podermos enxergar sem rótulos. Lembrando as vozes das dificuldades: enxergarmos sem julgamento, sem cinismo e sem medo.

A dificuldade em fazermos isso quando adultos é que, ainda crianças, enquanto em formação, somos treinados exatamente para julgarmos, nos comportarmos com cinismo e termos medo.

Rubem Alves, educador por toda uma vida, deixou seu testemunho para quem quiser, no mundo inteiro, ver e ouvir. Ele queria que os professores não ensinassem o que as crianças não precisam saber, mas que ensinassem o “espanto”. Para ele, a educação não é o lugar das respostas, mas das perguntas. Saber perguntar, para Rubem Alves, era pensar. As crianças precisam pensar, insistia o educador em suas aulas, palestras e mensagens mantidas na internet, na página do Instituto que leva o seu nome.

Certa ocasião, convidada a escrever sobre o meu professor inesquecível, parei para fazer, o que somente hoje consigo dar nome: “suspender e observar”. Precisava encontrar, em todos aqueles anos de história, vividos na escola, uma experiência que valesse a pena ser contada para os leitores de um livro. Então, suspendi e olhei para trás, em busca de uma experiência reveladora. Foi um exercício surpreendente, tanto que trago o meu texto original para esta reflexão.
Quando fui convidada a participar deste belíssimo projeto, fiquei imensamente feliz porque defendo que o carinho deve ser sempre materializado. Este livro me dará a chance de tornar público meu afeto a uma importante professora.

Antes queria dimensionar minha relação com a primeira escola, aquela que nos recebe quando ainda sabemos muito pouco. Não fui uma estudante convencional e a escola nunca foi, para mim, um lugar comum. Posso provar. Eu estudava a tarde e a ansiedade de viver a escola era tanta, que eu chegava muito cedo para o meu turno, com tanta frequência, que resultou no primeiro bilhete para minha mãe. Não chegava mais cedo para ver meninos ou fazer farra, nem porque em casa não era bom, chegava mais cedo para ter mais tempo de limpar as carteiras da minha sala. Levava uma solução de sabão com água em uma bisnaga e deixava tudo verdinho, era a cor da fórmica. Até escovão eu passava no chão. Para mim, não poderia ser diferente, aquele lugar do conhecimento não podia ser sujo. Quanto mais limpo, mais agradável eram os encontros.

Organizei até multirão para pintar os muros. Isso rendeu uma matéria feita pela jornalista Kátia Esteves, da EPTV, emissora de TV local. E foi neste universo de plena identidade, na Escola Estadual Francisco da Cunha Junqueira, no distrito de Bonfim Paulista, que eu conheci maravilhosos professores. A escola era para mim, um templo e os educadores, verdadeiros deuses. Mas uma professora em especial não esqueço, a dona Helena Maria, professora de Educação Artística.

Antes de conhecê-la, eu tinha certeza de que queria ser professora primária, afinal, era, para muitos daquele mesmo cenário que o meu, o máximo que se podia desejar. Terminar o ensino fundamental na escola pública, ingressar no então Normal, do Colégio Otoniel Mota, também público, prestar concurso público e ser professora pelo resto da vida. Para mim, esta possibilidade não era ruim, mas minhas motivações pareceram, para aquela atenta professora, equivocadas.

Depois de convivermos por três anos seguidos, tendo ela me conhecido melhor, um dia essa professora fez a pergunta que mudou meu jeito de encarar a vida. Nossos encontros em sala de aula eram poucos perto das outras disciplinas, mas como eu sempre estava envolvida com o Teatro da Escola, com a formação da Fanfarra, com a organização das festas cívicas e das campanhas, tinha uma proximidade maior com ela e, acho que foi por isso, que ela então me perguntou:
_ Você quer ser professora porque deseja ensinar ou porque imagina que não pode ser outra coisa?
Foi aí que ela me levou a entender, que de verdade, até aquele momento, eu acreditava que ser professora era meu destino, quando na verdade, queria mesmo ser jornalista.

Talvez esta professora não saiba, mas aquela pergunta mudou a minha vida. Não porque como jornalista eu seria mais que uma professora, no final, também fui ser professora de jornalismo, mas porque ela me ensinou a avaliar e melhor diagnosticar as motivações, a confiar em meus desejos sem limitações de qualquer ordem. Agradeço a ela e a todos os professores que, envolvidos com suas causas, pois a educação é uma causa, fazem a pergunta certa.

Ainda quanto minha reflexão sobre o professor inesquecível, relacionando à narrativa de Gaarden, penso que gostava de limpar as carteiras da minha sala, porque não sabia, à época, que aquela era uma responsabilidade da escola e não minha. O que sei é que com o passar do tempo e os novos aprendizados, deixei de chegar mais cedo para limpar a sala. Ainda não gostava de estudar no lugar sujo, mas à medida que crescia era informada de que não devia fazer aquilo. No começo fiquei com vergonha de levar para a escola meu misturado de sabão e água, depois acho que me acostumei com as carteiras sujas.

A escola que deveria ser facilitadora das boas experiências, promove analogias mais próximas à segunda história de Gaardem, que reproduzo a seguir.

“Era uma vez uma centopeia que sabia dançar excepcionalmente bem com suas cem perninhas. Quando ela dançava, ou outros animais da floresta reuniam-se para vê-la e ficavam muito impressionados com sua arte. Só um bicho não gostava de assistir à dança da centopeia: uma tartaruga.
Na certa porque tinha inveja.
Como será que eu posso conseguir fazer a centopeia parar de dançar?, pensava ela. Ela não podia simplesmente dizer que a dança da centopeia não lhe agradava. E também não podia dizer que sabia dançar melhor que a centopeia, pois ninguém iria acreditar. Então ela começou a bolar um plano diabólico.
Que plano era esse?
A tartaruga pôs-se, então, a escrever uma carta endereçada à centopeia: “Oh, incomparável centopeia! Sou uma devota admiradora de sua dança singular e gostaria muito de saber como você faz para dançar. Você levanta primeiro a perna esquerda número 28 e depois a perna direita número 59, ou começa a dançar erguendo a perna direita número 26 e depois a perna esquerda número 49? Espero ansiosa por sua resposta. Cordiais saudações, a tartaruga.
Que coisa de doido!
Quando a centopeia recebeu esta carta, refletiu pela primeira vez na sua vida sobre o que fazia de fato quando dançava. Que perna ela movia primeiro? E qual perna vinha depois? E você sabe, Sofia, o que aconteceu?
Acho que a centopeia nunca mais dançou.
Foi isso mesmo. E é exatamente isto que pode acontecer quando o pensamento sufoca a imaginação.

E as crianças pararam de dançar quando entraram na escola. Foi-se o espanto, a vontade de perguntar.

O texto continua no livro, em especial focando o caminho da conscientização pela educação, mas paro por aqui, com a esperança de ter provocado, minimamente, uma vontade no leitor de continuar pensando sobre o assunto.

cultura e educação Cultura e Educação: propostas de conscientização adrianasilva
Autora da Matéria | Colaboradora
ADRIANA SILVA
Jornalista, doutora em Educação, pós doutoranda em Administração. Presidente do IPCCIC – Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais.
Site IPCCIC
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