Sempre que toco no assunto Criatividade, me faço a mesma pergunta: por que será que a maioria das pessoas insiste em dizer que não é criativa? A resposta pode estar inserida em outra pergunta: o que nós, educadores, fazemos para tornar nossos educandos mais criativos do que eram quando nos encontraram pela primeira vez? Você já deve ter se perguntado também e talvez já tenha as respostas – se forem diferentes das minhas, por favor, me escreva!

Como esse é um assunto muito vasto, vou me ater a poucos pontos que julgo fundamentais para qualquer começo de conversa.

Penso que o primeiro quiproquó feito em torno da Criatividade é a nossa crença na imutabilidade dos dons adquiridos. A ideia de se ter um “talento” vem de uma parábola bíblica, na qual alguns servos foram confrontados pelo patrão que os felicitava ou repreendia duramente por terem, ou não, multiplicado as moedas de ouro (chamadas Talentos) pelas quais ficaram responsáveis durante longa ausência do mestre. Pois bem, a essência dessa história  seria mostrar que apesar de cada um de nós nascermos com peculiaridades individuais, alguma potencialidade para isso ou aquilo, é possível multiplicar ou adormecer esses presentes genéticos ou divinos (dons), de acordo com nossa vontade e empenho. No entanto, crendo ou não em metafísica, muita gente prefere propagar a ideia de que Deus é um cara seletivo que escolhe quem é ou não é iluminado e que, por isso, pouco nos resta a fazer depois desse carimbo na testa: fulano tem esse talento no sangue, sicrano nasceu com o dom, beltrano não consegue mesmo fazer nada direito.

A meu ver, é aí que está o desafio do educador que pretende realmente tornar o mundo melhor para todos.

Ao rotular o educando  e propagar a ideia de que tudo esteja pronto e acabado, o educador semeia a desesperança. Tanto acaba por desmerecer o bom trabalho de quem se desenvolve em alguma área, quanto inibe o desenvolvimento de quem tem ritmo mais lento ou que ainda não se encontrou. Por isso, tomo aqui os ensinamentos de Marcelino Champagnat, Paulo Freire, Otto Scharmer e de todo o pessoal da Escola da Ponte, apenas para afirmar que “para educar, é preciso amar”. Nesse sentido, penso que para promover a criatividade é preciso amar em dobro – o que dá um baita trabalho, mas é muito gratificante.

Se considerarmos a Criatividade como um comportamento em processo, seu desenvolvimento está intimamente ligado com mudanças de hábitos e condutas. Ser criativa ou ser criativo é, apenas e nada mais, ser capaz de resolver problemas de forma adequada a cada situação e contexto, o que muitas vezes nos levará a soluções inusitadas e inovadoras. Esta é uma condição da nossa evolução, um diferencial que adquirimos frente aos nossos coleguinhas do mundo animalCreia: todos nós, você, eu e nossos educandos que ainda estão por vir, somos criativos por natureza!

Por isso, sugiro que a educadora ou o educador comece a preparação de suas aulas revendo sua própria imagem, já que se você não se julga criativa ou criativo, é pouco provável que possa ensinar alguém a sê-lo. Como nossa autoestima e autocrítica equilibradas são fundamentais para que possamos conduzir as outras pessoas por este caminho, é sempre bom retomar a fábula da Lebre e do Jabuti. Afinal, mesmo que você não tenha nascido com as pernas longas da Lebre, se não for muito arrogante, pode desenvolver a resiliência do Jabuti e ganhar a corrida.

Da mesma forma que os personagens da história, cada ser humano reage de uma forma diferente a estímulos. Essa consciência é importante no momento que temos que resolver qualquer problema, seja uma série de raciocínios matemáticos, seja a montagem de uma peça de teatro. Há quem prefira espaços de solidão e contemplação em busca de ideias, enquanto outros funcionam muito bem em ambientes barulhentos e sob muita pressão. Então, cabe ao educador promover, em primeiro lugar, a transformação de sua própria sala, do seu Set, em um ambiente criativo. A educação bancária, industrial, nos leva a colocar todo mundo enfileirado sob a tirania do relógio e de regras que nem nós sabemos mais para que devem servir, enquanto cada indivíduo funciona internamente de modo diferente do outro. Nesse ambiente uniformizado, a probabilidade de se desenvolver a Criatividade é muito pequena, pois apenas serão estimuladas positivamente aquelas pessoas cuja resposta criativa se desenvolve nessas condições. Daí é que surge o reforço do conceito deturpado de “dom”. Logo, se queremos gerar cada vez mais gente com senso criativo aguçado, a diversificação é o caminho. Sair da sala de vez em quando com a turma para ocupar outros espaços dentro ou fora da instituição escolar, começar a chamada de trás para frente, trabalhar em grupos dinâmicos, mudar o layout da sala de plateia para roda, trazer música de fundo para as atividades, mudar periodicamente a decoração do ambiente com ajuda dos estudantes (de qualquer idade), enfim, são algumas formas de começar ou continuar essa jornada.

Na sequencia, há que se valorizar o processo de escuta. Se “escutar” de verdade é complicado, pois geralmente nós filtramos o que desejamos ouvir e tendemos a padronizar as pessoas, mudemos o termo para “observar”, que é mais amplo e pode nos exercitar nesse sentido. A preocupação aqui é tentar ler os sinais diversos que cada estudante manda para nós o tempo todo, inclusive percebendo suas contradições ou reforços. Tom de voz, expressões facial e corporal, mudanças de comportamento, conteúdo e forma de texto ao desenho, passando pelas cores escolhidas ou pela força imprimida à caneta, tudo isso enquanto também nos observamos, em um processo dialético contínuo – ufa! Esse processo é fundamental, pois nos mostrará o tipo de problemas que devemos criar para cada estudante. Sim, devemos criar problemas cada vez mais difíceis, pois além dessa ser uma prática estimulante, é preciso treinar o encontro de soluções para consolidar o comportamento criativo. Quando a aula parte de um problema que em seguida será resolvido pelo aprendizado, as diversas teorias implicadas se mostram claramente como ferramentas e não como palavras ao vento.

Outro passo dessa experiência é promover a escuta observadora dentre o próprio grupo ou grupos. Com essa prática em andamento na relação educador-educando, pode-se ampliá-la para que os estudantes discutam os processos trilhados e as soluções encontradas para os problemas propostos. Além de aumentar o repertório de alternativas, isso desenvolve a capacidade de análise e síntese, culminando na elaboração de críticas não ofensivas e, ao mesmo tempo, fortalecendo a capacidade de absorção de novas ideias e de estruturação de argumentos e contra-argumentos. Se o processo for conduzido de forma sadia, em vez de competição pode-se alcançar um espaço colaborativo de criatividade, no qual todos trabalham e se estimulam a partir de um desafio comum , o grupo se educam de forma mais autônoma e otimizada, cada um mostrando ao outro o cardápio próprio de aprendizado que criou para montar seu melhor prato. Nesse momento, o educador passa realmente a indicar alternativas de rota, em vez e tomar o educando pela mão e sair arrastando o coitado por onde acha que deve.

Por fim, o fio da navalha da avaliação. A palavra de um educador, sobretudo se o mesmo for admirado pelo educando, tem um poder absurdo no bloqueio ou desbloqueio do comportamento criativo.  Preciso destacar aqui que há algum tempo aboli a ideia de “bom” ou “ruim”, preferindo o entendimento de que uma solução pode estar mais ou menos adequada a uma situação ou contexto. Creio que esse deva ser o ponto de partida de cada avaliação que, como bem sabemos, fica sempre melhor se feita com os estudantes e não à sua revelia. Posso afirmar com embasamento na prática, que é bem mais produtivo elogiar com destaque os bons pontos de uma solução que apontar com rudeza os seus defeitos. No entanto, creio que seja preciso deixar claro para o estudante se ele conseguiu, ou não, cumprir a tarefa estabelecida. Assim, sugiro que troquemos a velha fórmula de comparação entre bom e ruim para uma visão sistêmica do produto final de qualquer atividade. Quando se diz, por exemplo, “Seu texto está bem didático MAS contém erros de grafia”, o uso conjunção “mas” faz com que a última impressão proferida pareça valer mais que a primeira ou seja, o texto em questão é ruim por conter erros, não importa o quanto seja didático. O entendimento contrário também poderia ocorrer, caso as orações fossem invertidas, mas seria tão ilusório quanto o outro, mesmo que mais simpático. Por outro lado, quando a avaliação é colocada dessa forma, “Seu texto está bem didático E contém erros de grafia”, o estudante ganha a noção do todo, sem desequilíbrio entre as partes. Tudo isso também pode ser exercitado em grupo, concorda?

A partir da mudança de atitudes e espaços, do reconhecimento da importância do outro em um ambiente de desenvolvimento de autonomia em busca de visões sistêmicas, há o estímulo contínuo pela busca do aprendizado já que, como bons educadores, vamos continuar esmiuçando os problemas tornando-os mais interessantes para que suas soluções venham cada vez mais carregadas de nova Luz! Dicas sobre criatividade há aos montes, mas o desenvolvimento verdadeiro, creio eu, só vem com a revisão profunda da nossa prática.

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  • Cordeiro de Sá
    Cordeiro de Sá
    Colunista/Ilustrador
Cordeiro de Sá
Colunista/Ilustrador

Cordeiro de Sá (Campinas, 1972) é mestre em arquitetura e urbanismo. Já ministrou aulas em graduações e pós graduações de Arquitetura e Urbanismo, Design, Comunicação social e Marketing, em várias instituições educacionais de Ribeirão Preto e região. É ilustrador, animador e quadrinista. Coordena o selo alternativo RPHQ – Ribeirão Preto em quadrinhos, com três publicações indicadas ao mais importante prêmio nacional do gênero, o troféu HQ Mix.
Militante dos direitos humanos, foi duas vezes Conselheiro municipal dos direitos da Criança e do Adolescente e é Conselheiro municipal da Cultura, também em seu segundo mandato. Em  2005 recebeu o Prêmio PNBE de Responsabilidade Social, na categoria “a entidade educacional que queremos”, em nome do Centro Social Marista de Ribeirão Preto, que esteve sob sua  coordenação de 2002 a 2009.

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