Ilustração de capa: Cordeiro de Sá

 

“ Todas as emoções pertencem ao corpo, mas só são reconhecidas pela mente.”  – H. Lawrence

 

Caminhando pelo pátio de uma escola de Educação Infantil, senti certa nostalgia ao ver à minha frente uma roda de crianças brincando de “lenço atrás”; um pouco mais adiante, uma turma de pequenos levantava e agachava aos comandos de “vivo”ou “morto” dados pela professora. Avançando pelo pátio, embaixo de um quiosque, alguns meninos e meninas, agachados, rodopiavam orgulhosamente os piões confeccionados por eles próprios; um pouco mais à esquerda, um pequeno grupo disputava figurinhas “batendo bafo”.

Ao contemplar todas as cenas tão parecidas com as de minha infância, o menino, o moleque que mora no meu coração, como diz a música de Milton Nascimento, fez brilhar meus olhos diante daquele mosaico vivo de brinquedos e brincadeiras infantis. Arrebatado pelos movimentos graciosos, risos e sorrisos das crianças com seus moletons coloridos no final de tarde de inverno, cheguei a desconfiar que tivesse sido sugado pelo túnel do tempo, como no famoso seriado da televisão nos longínquos anos 70. Ledo engano, uma mão em meu ombro, seguido de uma voz feminina trouxeram – me de volta do meu “déjà vu”; era a coordenadora me explicando, por estarmos no mês de agosto, que a bola da vez era o folclore e seu rico repertório de brincadeiras, personagens, histórias e músicas.

Num retorno rápido à realidade, pensei: “Que pena! Logo sairão de cena das brincadeiras de faz – de – conta das crianças, os misteriosos e inventivos sacis e curupiras, para retornarem aos enfadonhos e desengonçados “dragons”e afins; os gregários piões serão substituídos pelos solitários games e tablets e o jogo de bafo não terá sentido, pois hoje pode – se comprar um álbum previamente preenchido.”

Pensei também nos meus tempos de criança, quando a escola era um dos muitos lugares onde se podia brincar, Além dela tínhamos o quintal das casas, o campinho do bairro, a rua… Hoje, no entanto, os espaços foram ficando reduzidos e empobrecidos com crescimento desenfreado das áreas urbanas, com as desigualdades sociais acentuadas e devido ainda a outros fatores sócio – ambientais que compõe a cena atual  A escola, via de regra, é o último reduto na construção do brincar para a maior parte das crianças.

A escola de Educação Infantil pode e deve ser o ambiente onde três elementos fundamentais – TEMPO – ESPAÇO – PESSOAS – estejam alinhados de maneira harmoniosa contribuindo para a aprendizagem de jogos, brinquedos e brincadeiras a partir de um programa pedagógico que desenvolva e valorize a prática psicomotora, inclusive, oportunizando não só o brincar dirigido, como também o livre brincar, para que os pequenos possam gerar e gerir escolhas e ideias.

“Uma ação educativa que permite à criança expressar sua espontaneidade criadora inicialmente a um nível dos comportamentos motores e afetivos que se traduzirá mais tarde, pela atitude do organismo de efetuar sínteses novas e explorar no plano mental o que tem experimentado na vivência corporal.”( Le Bouch). Se, pelo contrário, os estímulos e as vivências corporais de uma criança forem limitados, a mesma poderá ter seu processo de maturação retardado. Nessas situações o trabalho psicomotor exerce um papel reeducativo possibilitando à criança recuperar, em parte, o atraso da maturação nervosa, aumentando sua experiência corporal.

O trabalho psicomotor na educação infantil traz também outros benefícios além do aproveitamento adequado das condições cognitivas. Por meio das respostas aos estímulos, os professores podem detectar eventuais problemas de desenvolvimento e, inclusive, deficiências sensoriais das crianças, que podem passar despercebidas nas consultas pediátricas.

A criança conhece o mundo através de sua ação, pelas experiências exploratórias que vêm dos sentidos e das relações com as pessoas e os objetos que a cercam. Deve, portanto, ter espaço para experimentar, ver, sentir, e manusear. Pensando nisso, voltemos ao início deste texto – as crianças reunidas no pátio da escola… “lenço atrás, rodar pião, bater bafo” e várias outras brincadeiras conhecidas, sob um olhar superficial, parecem atividades que servem apenas para entreter as crianças, mas fazem muito mais.

Segundo a neurocientista Suzana H. Houzel “Essas brincadeiras são um excelente exercício para o córtex pré – frontal. O córtex pré – frontal é a parte do cérebro que organiza nossas ações, faz planos, elabora estratégias e, sobretudo, diz não às respostas impulsivas do cérebro.” A neurocientista sinaliza que as crianças pequenas ainda não fazem nada disso muito bem, com  seu pré – frontal imaturo, de modo que qualquer “aula”de organização é bem vinda: escolher a resposta certa para cada estímulo. Entram em cena brincadeiras simples como “morto – vivo”, quando o cérebro aprende que deve responder a “morto” fazendo o corpo se agachar e, a “vivo”, colocando – o em pé. Na “batatinha – frita um, dois, três”, o córtex pré – frontal aprende que a resposta correta é a não ação e, de quebra, diverte – se com as estátuas dos amigos a sua volta.

Os desafios e as brincadeiras vão se modificando em função de cada faixa – etária, mantendo assim uma programação de vivências corporais, abrangendo movimento intelectivo e afetivo, prazer sensório motor e linguagem, possibilitando a harmonização da criança enquanto sujeito de sua ação no mundo.

 


Colunista: André Luis de Oliveira

  • André Luís Ferreira de Oliveira
    André Luís Ferreira de Oliveira
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André Luís Ferreira de Oliveira
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Psicopedagogia e Escritor (Literatura Infantil)
André nasceu em Ribeirão Preto, em 1964. Pedagogo, com especialização em psicopedagogia clínica e institucional. Iniciou em 1983, no Colégio Pequeno Príncipe( Ribeirão Preto – SP) como recreacionista. Fundou a Escola Calidoscópio, atuando durante 10 anos como diretor da Educação Infantil. Em Campinas, foi instrutor pedagógico na Fundação Síndrome de Down. Na UNIFRAN( Universidade de Franca) exerceu durante 4 anos a função de docente nos cursos de Pedagogia e Fonoaudiologia. Em 2000, retornou ao Colégio Pequeno Príncipe, onde atua como diretor, psicopedagogo, desenvolvendo projetos de jogos corporais e atividades ligadas à leitura e escrita. Ministra cursos e oficinas para professores, além de oferecer atendimento psicopedagógico clínico para crianças. É autor de A CIDADE DOS CACHORROS, BICHOS DIVERSOS, POEMINHAS RADICAIS, entre outros livros, para o público Infanto-juvenil. Criou o JOGO DA ACESSIBILIDADE – Ministério da Educação – Ministério das cidades – ABEA – MEC. André é colunista na revista “Leque” de Ribeirão Preto.

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