Inspirou como se erguesse a existência com os pulmões. Elas virão! A bofetadas, o tempo lhe ensinara que a vida não é uma equação pitagórica: uma delas pode ter passado mal; nesta época do ano, a gripe costuma atacar os que estão com o escudo em repouso. Ou, quem sabe, o carro pode ter enguiçado no caminho; estes carros modernos são mais frágeis que um coração empoeirado. Sentindo a menção do pensamento, o órgão debateu-se no calabouço torácico, mas logo foi domado pelo marca-passo e, resignando-se como um escravo recém-açoitado, voltou à sua função de tesoureiro da esperança.

De canto de olho, dissimulando para si o ato recorrente, o velho espiou o relógio frouxo no pulso, sem, contudo, apreender as horas. O visor estava com a cara para baixo, provavelmente intimidado por ser observado tão compulsivamente. Arrumou o instrumento no braço esquálido; os ponteiros, apesar de trêmulos, conseguiam marcar duas horas.

O almoço era servido pontualmente ao meio-dia. Porém, na semana anterior, combinara com a encarregada do turno que no dia por ele tão ansiado almoçaria uma hora mais cedo. Apesar de não olhar nos olhos dos pacientes (ou hóspedes como preferia dizer), ela consentira por se tratar de uma ocasião extraordinária. Assim, meio-dia e meia estava ele pronto, terno verde-musgo, sapato engraxado, gravata borboleta.

Os fios prateados do bigode, enfileirados feito militares condescendentes, refletiam os raios de sol que invadiam o alpendre. Sentiu-se consolado por compartilhar da luz que se deitava sobre o jardim à sua frente. No entanto, não estava à vontade no banco branco. Nem mesmo a fralda atenuava o desconforto causado pelas ripas de madeira. Era como se o confidente de tantas tardes não o reconhecesse naquele invólucro esverdeado e, para expelir o forasteiro, enrijecesse os nervos de mogno. Com um sinal, pediu à moça de jaleco que lhe trouxesse o andador. Prontamente ela obedeceu. Ao lado dele, ficou observando. O assombro, feito a sombra de uma nuvem no descampado, foi engolindo o enternecimento no rosto da jovem recém-contratada. O esforço ineficaz daquele homem em escombros trouxe um espelho à sua frente: viu-se pelada numa cadeira de rodas, com o tempo ancorado nos ombros. Respondendo ao impulso de conservação, pôs-se portão afora. No ocaso da vida, não nos pertencemos, minha filha, sussurrou o velho, mirando os cabelos esvoaçantes da ex-futura-enfermeira. Mesmo pensamento que o assaltara quando fora surpreendido pela neta com as calças sujas na sala de estar do seu apartamento, momentos antes do cobiçado pretendente dela apertar o interfone. Na manhã seguinte, Pedro Andrade chegava à Casa de Repouso, eufemismo rasteiro para seus ouvidos de poeta. Talvez Antecâmara do Cemitério ou Estoque de Cadáveres Teimosos fossem expressões mais apropriadas para a placa fixada no cume do arco de ferro, à entrada do jardim.

A encarregada, patrimônio do estabelecimento, ao constatar que o velho perderia o combate com a gravidade, correu ao seu encontro e o levantou pelos fiapos do bíceps. Ele agradeceu com a metade clara da face. A outra lamentava por sua mente não ter abraçado a degradação com tanta volúpia como fizera o corpo. Afinal, se do baú onde se armazenam as experiências fosse arrancado o fundo, a vida seria uma eterna novidade, e ele não faria mais que satisfazer suas necessidades imediatas. Mas a vontade pouco pode contra a natureza: ele continuava a se recordar dos anos em que a felicidade fora sua concubina.

Logo que entrara no salão seus olhos foram arrastados para a pele amendoada, os cabelos longos e negros e os gestos cristalinos. Ela não devia ter mais que dezoito anos. Soube mais tarde, quando seus lábios a experimentaram, que faria dezessete no mês seguinte. Daquela noite até a morte da esposa foram sessenta e quatro anos, uma filha e duas netas. Uma mulher que carregava no peito sublimes paradoxos, acrescentando constantemente à singeleza da menina do baile a bravura das fêmeas quando geram descendentes. Entretanto, ela não transmitiu à filha o predicado do cuidado. Talvez, por ser-lhe um atributo tão caro, não quis dividi-lo, contando que zelaria por seu homem até ele morrer. Para infortúnio do marido, sua perspectiva fora invertida pelo destino.

Fez o percurso de uma parede à outra. Repetiu. Novamente. Pelo vão do andador, olhava para o piso de um branco esquecido, olhos mirrados, dependentes da blindagem oferecida pelas lentes apoiadas no nariz corcunda. As axilas começavam a denunciar o esforço à camisa. Preciso me recompor, elas estão chegando! Sentou-se na poltrona encostada ao pilar, sustentáculo da cobertura do alpendre. Era numa parecida que a filha esparramava-se em seu colo no momento em que tentava mediação com a rima toante ou a métrica alexandrina. Depois da troca de afagos, o poema aparecia dançando em seus pensamentos, como se a inspiração estivesse grudada no sorriso daquela criança.

O coração novamente vazou, desta vez por um estímulo externo: o carro que apontava no portão era vermelho com detalhes pretos. O modelo, ele não sabia se correspondia ao que devia esperar. A filha contara-lhe superficialmente sobre a aquisição do veículo na última vez que conversaram, havia quatro meses. A ligação estava péssima, ela falava de um navio. É vermelho e negro, então, minha filha? Feito o livro do Stendhal… Esquece, deixa pra lá. Foi neste dia que ela prometera visitá-lo. Como um religioso inculto, o velho cria que desta vez a ocasião derrubaria a filha do dorso da promessa, onde ela se equilibrava amazonicamente por quase um ano. Assegurou que levaria as filhas, salgadinhos e bolo.

O carro crescia e o cheiro das netas acariciava mais intensamente suas narinas, parabéns, vovô, o hálito hialino da filha adoçava-lhe as lágrimas, papai, o senhor é o meu alicerce. Os quatro cantariam em volta do bolo, velas acesas, a encarregada tiraria algumas fotos, afinal ele não poderia confiar cegamente no assoalho do seu baú que, apesar de resistente, estava completando noventa translações. Mas como é travessa a imaginação! Quando não lhe amarram devidamente os braços, ela rouba os dados arquivados pela memória e combina-os a seu bel-prazer: do carro, desceram dois homens altos, o mais novo com um ramalhete nas mãos. Passaram por ele como se fosse um espectro e aninharam-se no regaço da senhora que jazia ao seu lado.

O velho passou o resto da tarde enterrado na poltrona. As pernas curvadas, o tronco rijo e os braços dependurados davam-lhe o aspecto de uma árvore necrosada.

– Doutor Andrade, hora do banho!

Ele sequer piscou. Os olhos inertes, sugados pela flor murcha no jardim, pareciam-lhe emprestados. Eram seis da tarde, mas o crepúsculo habitava-o há horas.

 

Este conto é um dos 22 que compõem o livro “Violeta velha e outras flores”, publicado em 2014 pela Editora Patuá.


Matéria por: Matheus Arcaro

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Matheus Arcaro
Colunista

Professor de Filosofia e Escritor.
Matheus Arcaro nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. Graduado em Comunicação Social e também em Filosofia. Pós-graduado em História da Arte. Atua como professor de Filosofia e Sociologia, artista plástico e palestrante. Desde 2006 tem artigos, crônicas, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Seu livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, publicado em 2014 pela Patuá, vem recebendo ótima crítica em âmbito nacional. Seu romance será publicado em 2016.

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