Por algum tempo prestei serviços para uma instituição universitária fora de minha cidade, o que me obrigava a viajar com certa constância. Mas isso não era um inconveniente…muito pelo contrário, foi até uma experiência bem agradável, pois parte dessas viagens se davam por estradas que me são familiares desde a minha infância e que, portanto me possibilitavam outras viagens através das janelas do tempo.

Numa dessas idas e vindas, sentou-se ao meu lado um jovem. Começamos a conversar e tão logo me identifiquei como professor, o assunto voltou-se para a escola.

O meu companheiro de viagem contou-me sobre suas frustrações e desencantos com a escola, surpreendendo-me muitas vezes pela sinceridade de sua narrativa. Disse-me que durante o primeiro ano escolar, mal freqüentou a sala de aula. Como ele morava em um pequeno sitio, o ônibus o deixava na porta da escola. Às vezes ele entrava, noutras vezes ele ficava brincando na praça, próximo da escola, até dar a hora de voltar para o ponto do ônibus. Foi assim durante um ano letivo inteiro sem que ninguém sequer se importasse. Nem seus pais vinham saber como ele estava na escola, nem seus professores se atentaram para o fato dele estar cabulando as aulas. E tudo o que ele queria era que alguém se importasse com ele, só isso.

Por ser um menino muito arteiro e de espírito rebelde, vivia apanhando de seu pai, mesmo pelas coisas que não fazia, o que aumentava ainda mais sua rebeldia, que conseqüentemente acabava por se exasperar na escola, onde o tratamento que recebia em casa se repetia. Levava como sempre, a culpa pelo que fez e principalmente pelo que não fez. Essa situação fez dele um aluno mal e vingativo, cujo prazer estava, como me disse, em transformar a vida de seus professores em um inferno. E assim foi a sua trajetória escolar, sendo convidado a se retirar de uma escola para outra, ano após ano, em meio a inúmeras advertências e suspensões que só agravava o seu estado de revolta.

Foi assim até que já adulto, encontrou uma professora que na sua primeira tentativa de desestabilização da aula, o desarmou perguntando em particular, que problema tão grande ele tinha para agir assim e em que ela poderia ajudá-lo. Na verdade, seu comportamento fora dos padrões era apenas um sinalizador de sua busca primeira: alguém que se importasse com ele e o aceitasse como era, com virtudes e defeitos que, aliás, todos temos.

Quantas vezes nos deparamos com comportamentos parecidos com o do meu jovem companheiro de viagem na sala de aula e não sabemos o que fazer. Quantas vezes nos irritamos, damos advertências, expulsamos o menino da sala de aula ignorando o seu direito de ali permanecer, exigimos a sua suspensão e até chegamos ao exagero de dizer que se o tal menino continuar frequentando a sala de aula, nós a deixaremos: ou ele ou eu, muitas vezes é a nossa resposta.

É fato que nós não somos anjos, somos pessoas e por isso também temos nossas angustias e aflições. É fato que muitas vezes também nos sentimos sós e desprotegidos, sem o devido respaldo ao nosso trabalho, sobretudo numa sociedade tão carente de padrões, limites e valores, que confunde autoridade com autoritarismo, liberdade com licenciosidade. E é fato que muitas vezes somos tratados apenas como um número de identificação, de modo totalmente impessoal, sem levar em conta as nossas especificidades.

É neste momento que nos igualamos, enquanto seres humanos, àquele nosso aluno, com a diferença de que ele, talvez por não temer as conseqüências de seus atos, se expõe, enquanto nós, já tão acostumados a engolir batráquios, simplesmente nos calamos ou dirigimos toda a nossa fúria contida para o aluno, cometendo um desvio de foco, pois se a escola ainda existe, é tão somente por causa dele, por mais problemático que  ele, aparentemente, venha a ser.

Que tal refletirmos um pouco sobre o que me relatou aquele jovem no ônibus e buscarmos nos aproximar mais de nossos alunos? Não estou propondo nenhuma prática psicologista de educação: apenas faço um convite ao diálogo, afinal, os alunos e nós professores, queiramos ou não, somos companheiros nesta longa viagem chamada educação.


Matéria por: Arnaldo Junior

  • Arnaldo Junior
    Arnaldo Junior
    Colunista
Arnaldo Junior
Colunista

Arnaldo Martinez de Bacco Junior é doutorando em Ciência da Educação (Universidad do Rosário – Argentina), mestre em Educação (Unesp – Araraquara), pós graduado em História Cultural (Claretianas – Batatais) e Metodologia do Ensino de História (São Luis – Jaboticabal) e graduado em História (Uni-Mauá – Ribeirão Preto).

Professor efetivo nas redes estadual e municipal de Ribeirão Preto e das Faculdades São Luis de Jaboticabal, é poeta, escritor, quadrinista, ilustrador e cartunista. Colabordor de vários órgãos de imprensa, é co-fundador do Fanzine cultural Boca de Porco, atuou como radialista no programa Tribo Verde de educação ambiental, é chargista/caricaturista do canal TVMais Ribeirão e do blog Farofa Cultural Ribeirão, entre outras coisas. Tem alguns livros publicados, entre eles, História Popular do Brasil em Quadrinhos, Chico, Chiquinha & Chicão, O palhaço que era triste, A panela Amarela e O menino que falava com as mãos.

Clique aqui para acessar todos os textos do colunista
Facebook
Site Pessoal


 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here