A Faculdade de Saúde Pública da USP oferece um curso para uma geração de pais cada vez mais perplexos com a velocidade das mudanças de valores e não sabem como agir com seus filhos adolescentes (revista Veja).

Na Escola  essa perplexidade se transforma em apatia quando constatamos que,  cada vez menos,  os pais participam das atividades educacionais , culturais  e esportivas promovidas pelo colégio de seus filhos.

Quanto maior a série cursada , menor é o número de pais que se fazem presentes nas  festas juninas,  gincanas, reuniões de qualquer tipo : os jovens sofrem de uma orfandade progressiva.

Os pais das crianças da Educação Infantil  , na faixa etária que vai dos 3 aos 6 anos, comparecem quase que em massa e vão desaparecendo   da  escola,  chegando quase a zero a freqüência em eventos promovidos para alunos do Ensino Médio , na faixa etária que vai dos 15 aos 18 anos.

Não querem comprar livros, não querem pagar excursões para museus , não querem gastar com teatro , não querem,  enfim , aplicar na educação complementar de seus filhos : é uma terceirização da educação.

É uma terceirização desumana que se resume em deixar o filhos no Colégio e pagar as mensalidades : quanto menos aborrecimento,  melhor .

Tudo é aborrecido .

O telefonema do coordenador/orientador irrita , o convite para uma reunião incomoda, a atividade extraclasse  é só mais um gasto , a tarefa cobrada pelo professor é perda de tempo ,  o livro paradidático a ser lido e trabalhado é só mais um item na extensa relação de gastos do mês.

Não basta ser pai , é preciso participar.

Às vezes penso, como Balzac , que a ironia constitui o fundo do caráter da Providência .

Não é possível tanta preocupação verbalizada  com a educação dos filhos e, ao mesmo tempo ,  tanto desinteresse prático pela qualidade dessa educação. Basta uma boa propaganda na mídia e pronto . Não olham os cadernos e apostilas de seus filhos , não acompanham as tarefas , não ligam para o colégio para saber a quantas andam as atividades e necessidades .

No livro “O Diário de um Mago “ , de Paulo Coelho , o personagem pensa , após quase ter sofrido um colapso: “ A planta continuaria , como continuariam as outras plantas , os ônibus , o verdureiro da esquina que sempre cobrava mais caro , a telefonista que me informava os números fora do catálogo . Todas estas pequenas coisas — que podiam desaparecer se eu tivesse tido um colapso naquela manhã — ganharam de repente uma enorme importância para mim . Eram elas , e não as estrelas ou a sabedoria,  que me diziam que eu estava vivo”.

A vida  é assim :  sua importância está nas pequenas coisas , nos pequenos , quase insignificantes  momentos.

Se você não vai assistir  à peça de teatro do colégio onde seu filho é só um  coadjuvante. Se você  não vai  ao lançamento da  antologia/brochura  onde existe um poema saído com carinho das entranhas do seu filho . Se você não o acompanha no jogo entre pais e alunos . Se você  não solta com ele uma pipa ou não tem tempo para ouvi-lo tocar durante uma festa tradicional da comunidade escolar então não se engane : ele estará  aprendendo  com exemplos que , quanto mais  ficamos  velhos , mais temos que nos virar sozinhos.

Então no asilo , já bem velho , você se perguntará , juntamente com outros que viveram como você :

Cadê os filhos ?


Colunista: Antonio Carlos Tórtoro

  • Antonio Carlos Tórtoro
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Antonio Carlos Tórtoro
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Antonio Carlos Tórtoro, é casado com a fotógrafa Lu Degobbi, e pai de dois filhos: Rodrigo (32) e Giovana (34).
Ex-presidente da Academia Ribeirãopretana de Letras e Idealizador e fundador da Academia Ribeirãopretana de Educação.
Cidadão Emérito de Ribeirão Preto e ex-presidente da ACRECE-Associação dos Cidadãos Ribeirãopretanos e Eméritos.
Membro da ALARP- Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto.
Fundador da casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto.
Escritor/poeta com 14 livros publicados, citado na Enciclopédia de Literatura Brasileira de Afrânio Coutinho.
Jornalista com colunas em jornais e revistas.
Professor de Matemática e Orientador Educacional do Colégio Anchieta /Objetivo.
Fotógrafo/ diretor do Grupo Amigos da Fotografia de Ribeirão Preto.

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