Quando eu tinha 9 anos, em 1998, meus pais compraram nosso primeiro computador. Até então, aquela máquina não fazia parte do meu imaginário afora no período das aulas de balé que eu matava para passar uma hora desenhando no Paint, enquanto a Enciclopédia Barsa e um dicionário Aurélio eram itens praticamente obrigatórios em todas as casas com estudantes.

Dois anos antes de meu pai entrar em casa trazendo aquela caixa enorme, em 1996, era publicado um livro do grande pensador e educador brasileiro, Paulo Freire, A Pedagogia da Autonomia, seu último trabalho produzido em vida, um ano antes da sua morte, em maio de 1997.

Naturalmente, em 1998, aos nove anos de idade, eu – enquanto perseguidora de pastilhas com o PAC-MAN – não poderia estar menos interessada na pedagogia do que quer que fosse, muito antes de entender que a educação é um meio universal, e não um fim em si, que possa ser limitado pelo término de uma aula, pelo fechamento de um livro ou pela conclusão de um curso.

“O grande dilema, a meu ver, na educação hoje, não é a busca da informação, mas sim a identificação da informação útil e transformadora para o indivíduo, aquela que fornece subsídios para interpretar e intervir em sua realidade”

Da obra de Paulo Freire aprendi que “a educação tem caráter permanente”. Em outras palavras, cada atuação consciente ou não, que implica em uma melhor interação com o mundo, é educação. Hoje, dezessete anos depois, cada membro de minha família tem seu próprio computador. Neste mesmo momento, para escrever esse texto, há catorze abas de pesquisa no Google abertas. E a Enciclopédia Barsa virou peso de papel. Entretanto, em um mundo tão diferente daquele em que Paulo Freire publicou seus livros, alguns dos conceitos fundamentais de sua obra permanecem ainda atuais.

No mundo hoje, há 3 bilhões de pessoas com acesso à internet. No Brasil, este número é equivalente à 48% da população. Talvez, desde a imprensa de Guttenberg, que conseguiu aumentar a produtividade e o alcance da palavra escrita, não há nada que se compare, em escala, à popularização da internet em termos de disseminação de informação.

Não sou uma educadora, pelo menos não no sentido tradicional da palavra. Em meu trabalho cotidiano, entretanto, a educação talvez seja a principal ferramenta da qual posso dispor para produzir um impacto em saúde com benefícios a longo prazo. Porque a validade da prescrição de um medicamento em uma receita é infinitamente menor do que a validade da responsabilização do indivíduo pela sua própria saúde.

“…muito antes de entender que a educação é um meio universal, e não um fim em si, que possa ser limitado pelo término de uma aula, pelo fechamento de um livro ou pela conclusão de um curso”

Há um estudo médico muito interessante que demonstrou que conversar por uma hora com pacientes com Insuficiência Cardíaca antes de dar alta, diminui de forma significativa a chance desses pacientes serem reinternados. Ou seja, mais importante do que o conhecimento do médico sobre a medicação certa, era que o médico conseguisse transferir o conhecimento para o paciente que permitisse que o ele se tornasse o principal agente na promoção de sua saúde.

Mas como saber qual informação é útil? Será que explicar para um paciente a mecânica do batimento do coração, a fisiologia da condução elétrica, faria diferença? Ou será que nesse tempo limitado que temos para educar um paciente, não seria mais importante orientá-lo sobre a importância de preparar a comida com pouco sal, de parar de fumar e de usar adequadamente as medicações, e ouvir, em contrapartida, suas dificuldades para adaptar a nossa informação ideal em sua vida diária, ajudando-o a encontrar essas soluções?

O grande dilema, a meu ver, na educação hoje, não é a busca da informação, mas sim a identificação da informação útil e transformadora para o indivíduo, aquela que fornece subsídios para interpretar e intervir em sua realidade. O grande desafio é identificar, em um conjunto praticamente infinito de saberes, quais serão aqueles que permitirão otimizar a interação com o mundo em prol do maior benefício coletivo e individual.

Diogo Costa, pesquisador de políticas públicas e professor de Relações Internacionais na Ibmec-MG, perguntou certa vez ao Senador Cristovam Buarque, o que ele responderia a um jovem ou a uma jovem de classe baixa que perguntasse o que deveria aprender para deixar de ser pobre.

Decidi “incomodar” vários dos meus conhecidos de diversas áreas com essa mesma questão. A resposta inicial foi unânime: através da educação. Um advogado formado que trabalha para a Polícia Civil pontuou que hoje apenas ter uma formação universitária não garante um sucesso profissional, que é preciso aprender a avaliar a necessidade do mercado e que muitos profissionais com curso técnico tem tido um desempenho melhor do que quem adquiriu formação universitária pelas demandas do mercado. Um estudante de Direito, formado em Ciências Sociais e que já trabalhou como professor de História respondeu que é necessário adquirir a ideia de que o benefício será somente colhido a longo prazo e que é necessário entender que é preciso obter uma renda e que a uma parte da renda deve ser convertida em capital para os investimentos necessários no caminho. Uma consultora do Sebrae, formada em Administração, pontuou ainda que o grande aprendizado é na postura: deve-se planejar ser empreendedor e proativo para transformar o planejamento em ação, mesmo na posição de empregado procurar situações em que o ambiente pode se tornar melhor, e principalmente tentar, errar e aprender com o erro. Uma professora respondeu que cada indivíduo já adquire seus meios para sobrevivência, e que ela questionaria o jovem, antes de qualquer coisa, sobre aquilo que ele já sabe fazer.

Quando os questionei sobre quanto tempo depois do término do ensino médio eles demoraram para adquirir essa consciência sobre o que seria um conhecimento útil, a resposta também foi esmagadora: entre 8 e 10 anos.

Em resumo, a grande maioria das competências adquiridas que hoje tem utilidade para a vida adulta, não foram obtidas durante a educação formal! Esse tempo, para jovens que tem uma oportunidade inicial e retaguarda social, talvez não custe tanto em termos de alcance de metas, mas a depender da disparidade entre o ponto de partida e o lugar onde se quer chegar, é um tempo extremamente valioso.

Naturalmente estamos falando aqui de opiniões de pessoas, e não de uma pesquisa com qualquer validade científica, mas por outro lado, essas opiniões são reprodutíveis em alguns estudos comportamentais que mostraram que alunos de uma faculdade conceituada que obtiveram maior sucesso foram justamente os que se mostraram precocemente capaz de desenvolver essas habilidades.
Vivemos em um mundo interessante em que um sujeito com uma boa ideia pode se estabelecer no mesmo patamar no mercado que um sujeito com capital para investir.

Boas ideias que geram soluções transformadoras são mais do que bens de consumo que aumentam o rendimento do sujeito que a empreendeu, mas principalmente um incremento na sustentabilidade e a produtividade de quem o adquire, transformando um bem não monetário (a ideia) em capital, e a obtenção deste bem, não em consumo, mas em investimento. Um mundo interessante que está em uma crise ideológica, em um momento em que vários modelos que ofereciam respostas simples estão se esgotando.

Este é um texto provocativo. É difícil saber qual vai ser o impacto a longo prazo sobre a forma como o ensino vai responder às mudanças de um mundo que os próprios educadores não conseguem compreender completamente. Mas aos jovens que lerem este texto, sugiro que sejam ativos no seu processo de educação, e aprendam a procurar os saberes que vão levá-los ao próximo passo.

Mariana a busca pelo conhecimento A busca pelo conhecimento necessário monica
Autora da Matéria | Colaboradora
Mônica Rossatti Molina

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