“Naquela mesa ele sentava sempre e me

contava contente o que fez de manhã…”

Sérgio Bittencourt

Aquela foi uma festa especial, eu estava completando seis anos, a casa repleta de pessoas queridas: tios, avós e amigos do colégio. Brigadeiros e balas de coco eram coadjuvantes compondo a mesa revestida por uma toalha com estampas psicodélicas, onde pontuava soberano um bolo retangular, coberto por uma camada gelatinosa verde que fazia as vezes de gramado. O marshmellow demarcava o meio de campo, pequenas e grandes áreas, linhas laterais e de fundo. Sobre o bolo, dois times de futebol de botão, perfilados como se estivessem prontos para o início da partida, completavam as cenas típicas dos domingos brasileiros às 4 horas da tarde, quando ouvia – se o bordão do saudoso locutor Fiori Giliote: “Abrem–se as cortinas, começa o espetáculo…”

Na manhã seguinte à festa do meu aniversário, em meio a embrulhos coloridos e brinquedos, vi meus pais chegando com as mãos para trás. Minha mãe se antecipou, abraçando–me e presenteando–me tendenciosamente com o uniforme do Comercial Futebol Clube, um dos times da nossa Ribeirão Preto, que também fazia bater mais forte o coração do meu avô Oliveiro.

Enquanto vestia o uniforme alvinegro, meu pai  aproximou – se entregando o seu presente: uma bola, a minha primeira bola de capotão! O mundo parou, os outros brinquedos e presentes tornaram–se irrelevantes. Esse momento ainda está registrado em minha memória afetiva; a bola e sua cor, seu cheiro forte de couro, a textura de suas costuras, a luz entrando pelo vitrô da sala e eu, menino com a bola na mão em um brilho sem igual nos olhos. Ali começava uma paixão que temperou e deu sabor especial a relações e de amizade que me são muito caras.

Meu pai e eu jogávamos futebol no quintal de casa, na praia, no clube e, nos finais de semana ia me ver jogar com os amigos no campinho de nossa rua. Aos domingos, eu e meu avô Oliveiro fazíamos uma longa caminhada até o campo do Comercial que geralmente perdia os jogos, mas mesmo assim nos divertíamos muito, sobretudo indo e voltando do estádio, jogando conversa fora, falando dos craques do passado, de Leônidas a Pelé. Ao me deixar em casa, eu o beijava na testa enquanto ele, com seus olhos miúdos, despedia–se dizendo: “É, meu neto, você ainda vai balançar as redes do Maracanã.” E eu me deitava feliz imaginando–me a fazer jogadas geniais.

O gosto pelo futebol ajudou–me a fazer amigos. Apesar de introvertido, alavancou a minha auto–estima, me fez sonhar nas brincadeiras e jogos de faz-de-conta, sonhos não como os de hoje, de fazer fortuna, mas sim o desejo de fazer um golaço e correr para a torcida. O que nos emocionava era o jogo e sua ludicidade, as bandeiras e suas cores.

Quando garoto, era apaixonado pelo Rio de Janeiro, suas meninas, praias e times. Encantavam-me as cores dos uniformes e os hinos dos clubes cariocas, todos eles compostos por Lamartine Babo. Tive a sorte de alimentar essa paixão pelo Rio, pois a minha madrinha Maria Helena, irmã de minha mãe, morou lá naqueles tempos em que a violência não estampava os jornais com sangue. Em uma daquelas férias passadas no Rio, eu devia ter uns 10 anos, saí do apartamento localizado na rua Joaquim Nabuco, Copacabana, andei algumas quadras, atravessei a avenida Atlântica, sentei no calçadão e fiquei observando um grupo de garotos da minha idade jogando bola na praia, torcendo para que eles me chamassem, o que não aconteceu de início. Mesmo assim, hipnotizado pela bola e pelo mar ao fundo, fiquei ali uma eternidade até ouvir uma voz com o peculiar sotaque carioca me chamando: “Ei paulista, chega mais, vamos jogar!” Logo topei, os times estavam sendo formados e cada garoto escolhia um jogador profissional para representar. Naquele tempo os jogadores não trocavam de time com a frequência que acontece hoje, e tão pouco iam para o exterior em transações milionárias. O flamenguista nem titubeou dizendo: “Eu sou o Zico”, o vascaíno retrucou: “Que Zico, que nada eu vou ser o Dinamite”, e até o botafoguense, há tempo sem comemorar um título, orgulhava–se de sua estrela solitária:  “Eu sou o Mendonça”.

Então me perguntaram : “E você paulista, quem você vai ser?” – lembrando-me dos domingos com o meu avô no campo do Comercial, respondi de bate–pronto: “Eu vou ser o Ziquita!”. Os garotos cariocas, espantados, olharam –me como se eu fosse um ET e perguntaram em uníssono: “Ziquita, mas quem é Ziquita?!” – e eu, meio sem graça, respondi: “É o artilheiro do Comercial de Ribeirão Preto”.

Chegando em Ribeirão contei essa história para o meu avô que, com um sorriso maroto me falou: “André, meu neto, o Comercial não foi feito pra as revistas das capitais, o Ziquita não aparece nos gols do Fantástico. Comercial é paixão de matuto, forte como um segredo bem guardado.”

Foi a paixão pela bola que fez com que eu desenvolvesse o hábito de ler num momento em que eu ainda não havia descoberto os livros. Toda semana eu gastava parte da minha mesada nas bancas comprando a revista Placar, publicação de editora  Abril especializada em futebol, que eu lia de cabo a rabo, afiando assim ritmo e a minha fluência para a leitura.

Uma das poucas vezes que tirei nota dez na escola, também se deve as minhas leituras da revista Placar. O prodígio aconteceu em uma prova de Geografia, cujo conteúdo eram as regiões, seus estados e suas capitais. Como eu acompanhava os campeonatos regionais, sabia de cor e salteado os nomes das cidades onde os jogos eram realizados e a que campeonato correspondiam, fosse o glamoroso campeonato carioca, ou folclórico campeonato baiano, ou mesmo o pouco falado campeonato Potiguar.

A bola rola, a fila anda, “tempo is fugity”, meu filho João Pedro, faz os seus gols nos jogos da escola. É, a vida tem sido generosa. Estamos aqui: meus pais, irmãos, os grandes amigos. E eu me vendo criança, sonhando em balançar as redes do Maracanã, segurando a bola, sentindo o seu cheiro forte de couro e a textura de suas costuras, com a luz entrando pelo vitrô da sala. Beijo a testa de meu avô Oliveiro, olho para os seus olhos miúdos e digo: “Obrigado, meu avô querido, por me contado as suas histórias, elas me ensinaram a contar as minhas.”

 


Colunista: André Luís Ferreira de Oliveira

  • André Luís Ferreira de Oliveira
    André Luís Ferreira de Oliveira
    Colunista
André Luís Ferreira de Oliveira
Colunista

1

Psicopedagogia e Escritor (Literatura Infantil)
André nasceu em Ribeirão Preto, em 1964. Pedagogo, com especialização em psicopedagogia clínica e institucional. Iniciou em 1983, no Colégio Pequeno Príncipe( Ribeirão Preto – SP) como recreacionista. Fundou a Escola Calidoscópio, atuando durante 10 anos como diretor da Educação Infantil. Em Campinas, foi instrutor pedagógico na Fundação Síndrome de Down. Na UNIFRAN( Universidade de Franca) exerceu durante 4 anos a função de docente nos cursos de Pedagogia e Fonoaudiologia. Em 2000, retornou ao Colégio Pequeno Príncipe, onde atua como diretor, psicopedagogo, desenvolvendo projetos de jogos corporais e atividades ligadas à leitura e escrita. Ministra cursos e oficinas para professores, além de oferecer atendimento psicopedagógico clínico para crianças. É autor de A CIDADE DOS CACHORROS, BICHOS DIVERSOS, POEMINHAS RADICAIS, entre outros livros, para o público Infanto-juvenil. Criou o JOGO DA ACESSIBILIDADE – Ministério da Educação – Ministério das cidades – ABEA – MEC. André é colunista na revista “Leque” de Ribeirão Preto.

Clique aqui para acessar todos os textos do colunista
E-mail
Site
Link para adquirir os livros:
http://www.livrariacultura.com.br
http://www.travessa.com.br


DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here