Uma questão que propicia abordar a questão da avaliação de larga escala.

– “Professor, partindo dessa sua lógica, as avaliações externas hoje no Brasil, sobretudo as que compõem o SAEB, achas que são bons andaimes para as escolas?” Postada por Márden Pádua.

Até os anos 1980, no mundo e no Brasil, se considerava que o responsável pelo fracasso escolar era o educando individual. Ainda, muitos de nós, educadores, repetimos as afirmações que revelam esse entendimento e essa postura, tais como: “os estudantes, hoje, não querem mais nada”; “não estudam”; “só desejam os games”; “só querem brincar”; “são indisciplinados”…

Nessa década, iniciou-se a entender que também o sistema de ensino falha, o que também produz o fracasso escolar. Investir na avaliação de larga escala em educação significa reconhecer que não só o estudante individual fracassa, mas o sistema como um todo fracassa.

O estudante pode ter dificuldades em sua aprendizagem. OK. Mas, então, cabe a pergunta: “O que o sistema de ensino faz para que ele supere sua dificuldade”? O sistema de ensino informa “que ensina”, mas, se os estudantes não aprendem, “como o sistema ensina”?

Se se ensina, mas não se aprende, não há ensino. O ato de ensinar, como já sinalizei em outro momento, nestes textos compartilhados aqui no Facebook, tem sua contrapartida na aprendizagem. Se se ensina, sem que haja aprendizagem, de fato, não houve ensino. Ao ensino decorre uma aprendizagem. Se não há aprendizagem, como houve ensino?

Então, a denominada avaliação de larga escala nasceu para aquilatar a qualidade dos resultados da educação em larga escala, que inclui desde a turma de estudantes, com a qual trabalhamos em sala de aula, a escola, o município, o estado, o país.

A avaliação da aprendizagem incide sobre os resultados individuais da aprendizagem, revelando se os estudantes aprenderam, ou não, o que era necessário aprender; a avaliação de larga escala em educação incide sobre a instituição escolar, ou seja, ela revela se a instituição está sendo eficiente na realização dos seus objetivos, ou não.

A avaliação de larga escala retira do estudante individual a exclusividade da responsabilidade a respeito do fracasso escolar, admitindo que o sistema pode não estar sendo eficiente, por múltiplas razões. E, se ele não está sendo eficiente, cabe investigar que condições e que práticas o sistema está oferecendo para as instâncias de ensino (escolas) realizem bem sua tarefa.

Então, a avaliação de larga escala em educação, que, no Brasil, se expressa pelo Saeb, Provinha Brasil, Prova Brasil, Enem, Enade, Ideb, e outras práticas, compõem, sim o “andaime”, que oferece base ao sistema de ensino agir de forma mais adequada para que a educação no país atinja seus objetivos, isto é que os educandos aprendam e se formem como sujeitos e como cidadãos.

Já existem estados, municípios, instituições e mesmo professores individuais que se servem dos resultados das avaliações de larga escala como subsidiários de novas decisões em busca de atingir objetivos desejados.

Os resultados da ANA – Avaliação Nacional da Alfabetização —, por exemplo, chegam oferecer os resultados não só por estado, município, escola, mas também nominalmente de cada estudante da alfabetização no país. Os resultados não só da ANA, mas também de todas as outras práticas avaliativas de larga escala, realizadas entre nós, podem e devem subsidiar decisões e investimentos mais adequados na melhoria do desempenho da educação no país, seja pelo governo federal, seja pelos governos estaduais, seja pelos municípios, seja pelas escolas, seja pelos professores.

Infelizmente, por vezes, os resultados dessas avaliações têm sido utilizados para premiar ou castigar, seja instituições ou profissionais; mas, essa é uma decisão que não pertence à avaliação e ao avaliador, porém, sim, ao gestor. Quem decide usar os resultados da avaliação para essas finalidades é gestor, como será ele também a decidir por utilizar os resultados da avaliação para promover melhorias, que, a meu ver, seria a única função verdadeira das práticas avaliativas.

Premiar ou castigar não é função do ato de avaliar, desde que a avaliação não decide nada; ela revela a qualidade da realidade e, a partir dessa revelação, o gestor deve decidir o que fazer.

A ação pertence ao gestor, não ao avaliador. O avaliador é um investigador da qualidade da realidade; o gestor, com base nos resultados dessa investigação decide o que fazer.

Em síntese, como na aprendizagem, a avaliação de larga escala é um dos recursos que compõem o “andaime da construção” da educação, se o gestor fizer uso adequado da mesma.

OBSERVAÇÃO — No blog — luckesi.blogspot.com —, nos artigos de número 23, 32, 33, 35, 38, 39, 40, 74, encontram-se variados tratamentos sobre a questão da avaliação de larga escala no Brasil.


Colunista: Cipriano Luckesi

  • Cipriano Luckesi
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Cipriano Luckesi
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Nascido em Charqueada – SP, o Professor Cipriano Carlos Luckesi, Doutor em Educação, é um dos nomes de referência em avaliação da aprendizagem escolar, assunto no qual se especializou ao longo de quatro décadas. Foi professor da Universidade Federal da Bahia, de 1972-2002, atuando na área de Filosofia, regendo disciplinas na graduação, assim como na Pós-Graduação em Educação. Na Universidade Estadual de Feira de Santana, BA (1976 a 1994), atuou nas áreas de Metodologia do Trabalho Científico e Metodologia da Pesquisa. Atualmente, aposentado oficialmente da Universidade Federal da Bahia.

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