Nova questão sobre avaliação de larga escala: – “Gostaria de lançar algumas perguntas que me incomodam muito quando tratamos de avaliação de larga escala: Quem determina o que é importante ensinar ou aprender? Se o “ensinador” pertencer à cultura diferente do “aprendedor”, não terão interesses diferentes do que ensinar e do que aprender? Este processo de avaliação de larga escala não seria uma tentativa de homogeneizar o conhecimento segundo os interesses do opressor (Paulo Freire)?” Postada por Sérgio Pinto Carneiro.

Inciemos por uma compreensão teórico-prática. Importa pensar que o currículo escolar comporta três níveis de conteúdo: nacional, que corresponde às contribuições dos diversos campos da ciência moderna e contemporânea; regional, que corresponde aos elementos culturais da região onde se encontra a escola; local, que corresponde às singularidades de cada local onde a escola se encontra.

Entendo que não podemos retirar do educando nenhuma dessas possibilidades culturais em sua formação. Num país imenso como o nosso, existem variações culturais regionais e locais, que não podem e não devem ser suprimidas; contudo, por outro lado, existem os diversos campos das ciências e das artes que pertencem à humanidade, já não  mais a um país ou nacionalidade e que merecem ser apropriados e utilizados.

A educação escolar deverá saber como integrar esses diversos níveis de conhecimentos e culturas na formação do educando de tal forma que ele possa ampliar sua consciência, sempre e sempre mais. Quanto mais amplo for o estado de consciência, melhor, desde que propiciará condições de autonomia, a mesmo tempo que de convivência com o diferente.

Antonio Gramsci, militante politico italiano, dizia que um cidadão que soubesse o dialeto de sua comunidade (a Itália possui e usa múltiplos dialetos, em conformidade com os diversos espaços geográficos e culturais) já tinha um recurso de comunicação com seus pares. Contudo, se tivesse posse da língua regional, teria possibilidade de se comunicar com pares de toda a região. E, se ainda, soubesse o italiano, como língua nacional, teria oportunidade de se comunicar com todos os cidadãos de nacionalidade italiana. E se, por acaso, soubesse uma língua estrangeira, poderia usufruir da cultura de um outro país, através da ciência, das artes, da literatura, das soluções socioculturais desse outro país.

Com essa compreensão, Gramisci sinalizava a importância das possibilidades de ampliação da consciência, através da apropriação dos diversos níveis de cultura, sem que um deles tenha que suprimir o outro.

Propiciar as condições para o trânsito do estado sociocultural mais restrito da comunidade para o estado mais amplo da cultura universal não deverá obscurecer as qualidades de qualquer um dos níveis socioculturais fundamentais para a formação do educando e do cidadão.

O trânsito deverá se dar constantemente nas duas direções: do mais restrito para o mais abrangente e do mais abrangente para o mais restrito, possibilitando a cada educando a possibilidade e a flexibilidade de integrar em si um estado de consciência consistente e amplo. Quanto mais amplo for o leque de possibilidades socioculturais integrados na vida do educando tanto menos restritiva será sua conduta.

Retomando a questão das avaliações de larga escala, importa observar que não há como os instrumentos de coleta de dados para esse tipo de avaliação, que leva em consideração o país (imenso , como é o nosso, com diversidades sócio culturais regionais e locais bastante distintas), incluir as nunces regionais e locais. Caso isso ocorresse, haveria necessidade de múltiplos instrumentos de coleta de dados, de tal forma que o instrumento de coleta de dados, a ser aplicado numa determinada região, tomasse como foco o conteúdo nacional, somado ao conteúdo regional. E, caso, se desejasse levar em conta, nesse tipo de avaliação, também a cultura local, haveria necessidade da inclusão também desse padrão de conteúdo no referido instrumento. Teríamos, então, múltiplos instrumentos de coleta de dados.

Diante da impossibilidade, ao menos no presente momento, dessa multiplicidade de instrumentos, a avaliação de larga escala toma com objeto de coleta de dados o currículo nacional, que possibilita aos estudantes terem acesso e se apropriarem da cultura de caráter universal (as ciências e as artes, no Brasil e fora dele, usufruem igualmente da riqueza da cultura universal). Esse fator unifica sim o país em termos de educação, ou seja, importa que crianças adolescentes e adultos, de norte a sul, de leste a oeste do país se apropriem do que a ciência e a cultura moderna e contemporânea tem produzido como recurso de entendimento do que ocorre na realidade natural e sociocultural, propiciando recursos para se viver melhor e de forma mais saudável.

E, então, cabe a pergunta: “onde seria avaliada a apropriação da cultura regional e local?” Nesse momento, nos procedimentos de avaliação da aprendizagem em cada escola. Então, todos os nossos educadores teriam que ser formados com essa compreensão ampla da cultura, assim como dos recursos para garantir que cada estudante se aproprie dos conteúdos do currículo no nível nacional, regional e local. Nenhum desses níveis de currículo é mais ou menos importante. Todos são necessários. Não se pode e não se deve descuidar nem privilegiar nenhum deles, se se deseja um cidadão formado para o mundo presente.

Caso se estude os documentos que configuram as avaliações de larga escala no país, encontrar-se-ão definições que deixam claro que a avaliação da aprendizagem deverá levar em conta distratores que os instrumentos de coleta de dados para uma prática de avaliação da educação de caráter nacional não tem como considerar. Como a variação sociocultural regional  e local são intensas, um instrumento único de coleta de dados para todo o país não teria como levar em consideração todas essas nunces.

Contudo, caso os instrumentos de coleta de dados propiciem uma compreensão de como nossas escolas, em todos os rincões deste país, estão subsidiando nossos educandos para que se apropriem minimamente da cultura universal, já será uma boa contribuição, estará estimulando que todos os educadores deste país compreendam que cada educando é um cidadão, que pode e de se servir de todas as contribuições seja da cultura local, da cultura regional,mas também das contribuições da ciência e da cultura moderna e contemporânea. A meu ver, esse é o caminho da construção e ampliação da consciência de cada um de nós. Quanto mais ampla e mais integrada nossa posse pessoal da cultura tanto mais abrangente poderá ser nosso estar no mundo.


Colunista: Cipriano Luckesi

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Cipriano Luckesi
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Nascido em Charqueada – SP, o Professor Cipriano Carlos Luckesi, Doutor em Educação, é um dos nomes de referência em avaliação da aprendizagem escolar, assunto no qual se especializou ao longo de quatro décadas. Foi professor da Universidade Federal da Bahia, de 1972-2002, atuando na área de Filosofia, regendo disciplinas na graduação, assim como na Pós-Graduação em Educação. Na Universidade Estadual de Feira de Santana, BA (1976 a 1994), atuou nas áreas de Metodologia do Trabalho Científico e Metodologia da Pesquisa. Atualmente, aposentado oficialmente da Universidade Federal da Bahia.

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