Diante do conjunto de incertezas de nossos tempos, uma das questões que mais gera tensão na hora do pensar e repensar a educação de nossos filhos fica sempre na dúvida entre, protegê-los das hostilidades do mundo ou simplesmente colocá-los diante das dificuldades para que aprendam, mesmo correndo riscos de fracasso, a resolver suas próprias agruras.

Lógico que não existem receitas prontas para esse enigma, mas dois detalhes me parecem fundamentais nesse processo: em primeiro lugar que cada pessoa desfrute de oportunidades para descobrir e alavancar suas habilidades e em segundo que a descoberta dessas competências depende diretamente das trocas que devem ser realizadas com os mais diferentes grupos sociais.

Existimos para fazer diferença entre pessoas diferentes, o que de forma geral viabiliza o fato de sermos agraciados por tudo aquilo que podemos receber de outros, bem como transferir o melhor de cada um de nós para aqueles que nos rodeiam.

Somente a partir do exercício da convivência social, com todos os seus conflitos e desacertos é que crianças e jovens podem aprender na prática a arte (tão em desuso) dessas relações humanas. Situação essa que viabiliza “o ganhar e o perder”, indispensável para a qualidade de vida que desejamos aos que amamos. Quanto mais trocas efetivamos com o meio em que vivemos, mais experimentamos nossas habilidades no uso das ferramentas (habilidades) que dispomos.

Dentro desse aspecto, chega a ser desajustada a tendência de muitas escolas que, com a desculpa de preparar seus alunos para as guerrilhas das provas, vestibulares e dos concursos, insistem em evitar e até mesmo proibir a prática de trabalhos em grupos, acreditando que as vitórias são consequência exclusiva do esforço individual.

Por que proceder assim se é justamente na condição de trabalho e participação em grupo que aprendemos a desenvolver as dinâmicas de relacionamento, liderança e solidariedade, características fundamentais para o futuro sucesso pessoal e profissional?

A resposta para essa condição em que nos encontramos vem de longe, fruto de uma globalização que, apesar de apresentar alguns detalhes positivos, acaba por massacrar características que anteriormente marcavam inclusive nossa cultura. Se por um lado os turistas estrangeiros sempre saiam do Brasil, valorizando a simpatia e cortesia de nosso povo tupiniquim, esse mesmo povo vem se mostrando cada vez mais temeroso do simples ato de se envolver em conversas com vizinhos, colegas e até mesmo parentes próximos.

“Ninguém é confiável”; “todo colega é um concorrente” e “tuas vitórias dependem exclusivamente de você”, são frases que rotineiramente vão sendo colocadas na cabeça de nossos jovens, a partir da discutível afirmação de que a felicidade está diretamente ligada à capacidade que cada pessoa tem de se superar sozinha. Uma verdadeira neurose que insiste em apresentar a felicidade como fruto exclusivo da autoestima, em detrimento da importância do “viver em grupo” e de toda a aprendizagem e prazer resultante disso.

Aprendemos nas trocas e quanto mais aprendemos mais nos sentimos seguros em nossas afirmações, ou seja, a autoestima depende diretamente do quanto e como convivemos com as mais diferentes pessoas, inclusive podendo praticar ações para o bem estar dos que nos rodeiam.

Já que, para iluminar o dia, o sol precisa estar acesso, cuidar do bem estar do próximo começa no bem estar comigo mesmo. Preciso estar acesso.

Bem, primeiro passo decidido: filhos precisam ser educados para conviver e então aprender a interferir e contemplar o mundo a sua volta, chega a hora de encararmos o segundo passo; o passo da coragem.

Coragem de lembrar que educamos pelo exemplo, o que significar dizer que também os pais precisam perder o medo das intempéries da vida e retomar o caminho das naturais relações interpessoais.

Coragem para deixar de sermos apáticos ou de simplesmente reclamarmos de toda e qualquer coisa que pareça escapar de nosso controle, para então transferir nossas verdades e projetos para aqueles que de nós descendem.

Viver se divide em utilizar as ferramentas que temos para interferir naquilo que discordamos e contemplar aquilo que foge de nossas mãos. Não há espaço para apatia social. A autonomia, a descoberta e uso das próprias competências em prol da solidariedade, no mínimo são boas e suficientes razões para justificar a necessidade da boa e nunca velha educação familiar em conexão constante com as instituições de ensino.

Como está escrito em Apocalipse 3:16, “… porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”, sejamos corajosos em nossa lida.


Matéria por: Guilherme Davoli

  • Guilherme Davoli
    Guilherme Davoli
    Colunista
Guilherme Davoli
Colunista

Psicólogo atuante como psicoterapeuta, professor de psicologia, consultor empresarial e educacional. Autor dos livros:
“Admirando a tempestade e brincando com o vento”
“Vítimas e aprendizes da própria história”
“Somos mais que um simples espetáculo” “Colecionadores de histórias”
Articulista das revistas: “Evidência”, “Profissão Mestre”, “Conectado”, “Ultimato online”, SME-Sistema Mackenzie de Ensino” e do jornal “The Brasilians” (New York). Palestras, cursos e oficinas em empresas, órgãos públicos e instituições de ensino, desenvolvendo temas pertinentes à educação, relacionamento interpessoal e qualidade de vida.

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