Esse mundo em que vivemos anda recheado de dois tipos de coisas básicas: as úteis e as que são, ou parecem ser, inúteis.

De maneira geral, coisas como ler, escrever, fazer contas e interpretar textos simples ou complexos parecem ser os únicos conhecimentos importantes, a serem assimilados durante o tempo que se vive dentro de uma escola. Conhecimentos capazes de estabelecer a grande diferença entre aqueles que farão sucesso e os que assistirão esse sucesso, dentro de um mundo tão cheio de diferenças que tanto criticamos e ao mesmo tempo acabamos por perpetuar.

“Não existe atividade extra. Toda atividade que um ser humano possa vir a praticar, quer escolar, profissional, física ou artística, existe para oportunizar o desenvolvimento de habilidades que, após descobertas, passam a ser reconhecidas como características peculiares do alicerce em que se apoiará o desenrolar dessa vida”

Estranho observarmos que enquanto muitos pais e alguns professores, esquecendo-se de acompanhar o processo de transformação e descobertas, aproveitando para aprender juntos, insistem em olhar seus filhos e alunos apenas pela ótica de um profissionalismo futuro, preocupados exclusivamente com o conhecimento formal, enquanto no mundo real do mercado de trabalho, encontramos grandes conglomerados empresariais buscando seus melhores profissionais dentre aqueles que se apresentam cada vez mais dinâmicos e criativos. Dinâmicos, criativos e livres de amarras.

O profissional mais qualificado para as diversidades do século XXI é o que vai além do óbvio, não se bastando com o conhecimento acadêmico.

A mistura do conhecimento formal e informal, com a disciplina nos estudos e no trabalho, bem como toda a indispensável maleabilidade nas relações sociais, só se completa quando essa pessoa, sendo conhecedora de suas mais simples habilidades, passa a desfrutar serenamente as portas que se abrem e se fecham à sua frente, se compreendendo menos dependente das cobranças externas.

Cada vez mais os testes de Q.I. e de personalidade, bem como as avaliações de conhecimento técnico e específico, vêm sendo substituídos por entrevistas abertas e dinâmicas de grupo. Cada vez mais diálogos, que currículos meramente formais. Os currículos passam a ser apenas mais um item no processo.

Os próprios trabalhos e tarefas em grupo, muitas vezes desprezados e evitados por pais e mestres, por interpretá-los como meio de alunos “acomodados” usufruírem do esforço e dedicação de outros, são fundamentais na formação de pessoas mais capazes de trabalhar e intervir em equipe; marca registrada desse novo e desafiador tempo que estamos presenciando.
Mas como esperar que crianças e adolescentes, ultimamente condicionados a pensar e produzir apenas individualmente, inclusive com o receio constante da concorrência dos próprios colegas, venham a se tornar prontas e dispostas a participar de debates em grupo, em prol de objetivos que não sejam estritamente pessoais?

Enquanto as lutas no tatame mostram o quanto brigas sempre são desnecessárias, e as aulas de balé e jazz revelam o quanto é possível dançar somente no sentido lúdico dessa expressão, a música e o teatro auxiliam a quebra das resistências e inseguranças grupais. As artes e os esportes nunca foram meros instrumentos de lazer. As artes e os esportes são instrumentos para o despertar de essências humanas, e para verificar isso, basta ver o quanto que os povos indígenas valorizam e se esmeram em suas práticas.

Porém, apesar da dessas colocações, infelizmente, diante de resultados pedagógicos insatisfatórios, uma das punições mais utilizadas por pais, consiste em suspender a participação de seus “filhos temporariamente improdutivos”, das chamadas “atividades extras”, por considerá-las apenas recreativas e sem função prática, e até mesmo nocivas à rotina dos estudos, quando em muitos casos, são as únicas oportunidades dessas crianças se curtirem, descobrindo potencialidades e se posicionando nas relações interpessoais. Essas sim, fundamentais para todo e qualquer tipo de futuro.

Uma criança que se gosta mais, na proporção em que conhece melhor seu leque de capacidades, estará sempre mais apta a se superar naquelas habilidades que lhe parecem escapar.

Não existe atividade extra. Toda atividade que um ser humano possa vir a praticar, quer escolar, profissional, física ou artística, existe para oportunizar o desenvolvimento de habilidades que, após descobertas, passam a ser reconhecidas como características peculiares do alicerce em que se apoiará o desenrolar dessa vida.

Não podemos confundir oportunidades inovadoras com atividades irresponsáveis. Chega a parecer que diante de um mundo tão carregado de competitividade, esquecemos que o desenvolvimento e formação da personalidade, quando atropelados, resultam em um adulto recheado de medos e pouca criatividade, e isso o futuro dispensa.
Você é capaz de se lembra do alívio que já sentiu, quando diante de uma situação sufocante, foi capaz de se posicionar, reconhecendo-se e sendo reconhecido por outros ângulos?

Uma coisa é certa; “não se pode punir habilidades”. Elas existem para ser vividas e exteriorizadas, pelo bem da pessoa e dos que com ela convivem.  


Matéria por: Guilherme Davoli

  • Guilherme Davoli
    Guilherme Davoli
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Guilherme Davoli
Colunista

Psicólogo atuante como psicoterapeuta, professor de psicologia, consultor empresarial e educacional. Autor dos livros:
“Admirando a tempestade e brincando com o vento”
“Vítimas e aprendizes da própria história”
“Somos mais que um simples espetáculo” “Colecionadores de histórias”
Articulista das revistas: “Evidência”, “Profissão Mestre”, “Conectado”, “Ultimato online”, SME-Sistema Mackenzie de Ensino” e do jornal “The Brasilians” (New York). Palestras, cursos e oficinas em empresas, órgãos públicos e instituições de ensino, desenvolvendo temas pertinentes à educação, relacionamento interpessoal e qualidade de vida.

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