Aqui e acolá, emerge a questão das notas escolares, que se fazem presentes no cotidiano dos educadores, dos estudantes, dos pais, assim como de diversos profissionais na estrutura da organização educativa institucional, municipal, estadual ou federal. Vamos tratar dessas questões.

Há um senso comum entre nós de que as notas escolares representam efetivamente a aprendizagem dos nossos educandos. Todavia, importa lembrar que, no dia a dia de nosso sistema educacional, os profissionais, estudantes, pais, usualmente, se expressam com frase como as que se seguem: “Você precisa melhorar sua nota”; “A escola necessita de melhorar sua nota no ranking nacional”; “A escola necessita de melhorar sua classificação (afinal, nota)”… e, dessa forma, por diante. Todos centrados na nota

No ano de 2014, publiquei um livro, através da Cortez Editora, São Paulo, que tem o seguinte título “Sobre notas escolares: distorções e possibilidades”, que pode ser útil para compreender mais largamente o que exporei no presente texto.

De fato, o que importa é “melhorar a qualidade da aprendizagem”; a nota é simplesmente uma forma de registrar “a qualidade da aprendizagem”. Então, a expressão não deveria ser “melhorar a nota”, mas sim, “melhorar a qualidade da aprendizagem”.

A questão não é a nota em si, mas sim a aprendizagem. A nota — como bem diz a expressão “anotar” — é e será simplesmente o registro da qualidade da aprendizagem do estudante.

O viés que veio confundir mais ainda a questão da relação entre “aprendizagem” e “seu registro” no histórico escolar do estudante, emergiu com a adoção do sistema métrico internacional para proceder esses registros. Não tenho ainda informação histórica precisa de quando os registros de aproveitamento escolar passaram a ser realizados pelo sistema métrico decimal.

O Sistema Internacional de Pesos e Medidas (SI) foi adotado, a partir do início do século XIX, na França, pós Revolução Francesa, tendo se expandido pelo mundo. O Brasil adotou esse sistema em 1862, já os Estados Unidos da América do Norte, só a partir de 1970, e a Inglaterra não o adotou até hoje.

Tenho desconfiança — mas não uma informação histórica precisa — de que as notas escolares decimais — notas de 0 (zero) a 100 ou de 0 (zero) a 10, com suas médias — foram adotadas a partir do sistema métrico internacional, à media que, nos Estados Unidos e na Inglaterra, países que não adoram de imediato o Sistema Internacional de Pesos e Medidas (SI), os registros escolares não são feitos de forma numérica, mas de forma alfabética. Nesses países, os registros de aproveitamento escolar são realizados por letras, usualmente A, B, C, D, E, expressando qualidades decrescentes, do A para o E.

O uso do registro numérico dentro do sistema decimal permite as “médias escolares”, que, por si, trazem enganos. Por exemplo, um estudante que obteve nota 10,0 em adição e 2,0 em subtração, na média de notas, obtém a nota final 6,0; nota de aprovação no que se refere à aprendizagem tanto de adição como de subtração; porém, de fato, do ponto de vista da aprendizagem, o estudante aprendeu somente adição; em subtração, apresenta carência completa, contudo está “aprovado”. Nesse caso, não foi a qualidade da aprendizagem que deu base à aprovação, porém, sim, a média de notas.

Frente à essa compreensão, necessitamos mudar a direção do nosso investimento: investir na aprendizagem; a nota será registro do resultado desse investimento. Se desejamos qualidade nas aprendizagens, necessitamos modificar essa cultura cotidiana e comum. O que importa ao estudante e ao educador é que haja uma aprendizagem satisfatória; a nota virá por consequência como registro da qualidade conquistada na aprendizagem.

A fenômeno da nota escolar apresenta um foco distorcido; ao invés de focar a atenção na busca de um conteúdo qualitativamente positivo, se foca na simbologia numérica que a expressa, sob a forma de registro.

Então de imediato, virá a pergunta: “Então, não haverá nota?”. Nota, no caso, é “registro” da qualidade da realidade da aprendizagem do estudante. Se aprendizagem foi efetivamente realizada, os dados da avaliação devem revelar isso, como também podem revelar que que o estudante ainda não aprendeu o necessário. Caso (01) a aprendizagem já tenha sido realizada de modo satisfatório, registrar-se-á sua qualidade satisfatória; caso (02) a aprendizagem não tenha se feito — “ainda” — de forma satisfatória, a única possibilidade é ensinar até que o estudante aprenda o necessário, desde que a escola foi criada para ensinar o necessário.

Uma escola será uma “boa escola”, se conseguir que todos os seus educandos aprendam o que devem aprender. Então, nessa situação, se registrará a aprendizagem como satisfatória, devido ela ter sido atingida com esse patamar de qualidade. Seu registro (nota) não será uma média decimal de notas, mas sim o registro de uma aprendizagem satisfatória.

Nesse contexto, a função da avaliação não será, em primeiro lugar, possibilitar notas aos estudantes, mas sim diagnosticar a sua aprendizagem, que, em caso satisfatório, registrar-se-á essa satisfatoriedade; e, em caso negativo, se investirá até quo e estudante chegue à aprendizagem do determinado conteúdo com nível de satisfatoriedade.

À essa altura, poderá vir nova pergunta: “Então, todos os estudantes terão boas notas?”. Não serão “boas notas”, mas sim o registro da qualidade de sua aprendizagem satisfatória. O histórico escolar, que contém os registros da qualidade da aprendizagem dos estudantes, registra o “testemunho” dos educadores de que eles acompanharam os seus estudantes, investiram neles e eles aprenderam o necessário.

Como seriam os registros desse testemunho? Poderiam ser os atuais registros numéricos (ou outras formas de registro), mas com uma nuance, que virá, de imediato, à tona com a argumentação de que os estudantes têm individualidades e alguns terão melhor desempenho que outros, que, certamente, tem a ver com a singularidade de cada um.

Então, diante desse fato, necessitamos ter clareza sobre o que é “a aprendizagem necessária” e o que “decorre da singularidade de cada um”.

Poderíamos, por exemplo, usando o registro numérico hoje utilizado de 0 (zero) a 10, registrar que nossos estudantes “chegaram à maestria” num determinado conteúdo (matemática, geografia, história…) pelo símbolo numérico 8,0; e os estudantes que atingiram essa “maestria necessária”, mas deram novos saltos em função de suas singularidades, poderíamos registrar com os símbolos numéricos 9,0 e 10,0.

A “maestria” tem a ver com a aprendizagem necessária, o “desenvolvimento para além da maestria” depende da singularidade de cada um. Na maestria, todos devem chegar. É esse fator que permite à educação atuar a favor da equalização social.

Caso tenhamos o entendimento, acima sinalizado, não miremos nem castigar nossos educandos com as “tais” provas, nem iremos afirmar que nossos estudantes aprenderam (notas) quando efetivamente ainda não aprenderam. Nosso foco necessita ser a aprendizagem; a nota será simplesmente um registro consequente da qualidade atingida na aprendizagem.


Colunista: Cipriano Luckesi

  • Cipriano Luckesi
    Cipriano Luckesi
    Colunista
Cipriano Luckesi
Colunista

Nascido em Charqueada – SP, o Professor Cipriano Carlos Luckesi, Doutor em Educação, é um dos nomes de referência em avaliação da aprendizagem escolar, assunto no qual se especializou ao longo de quatro décadas. Foi professor da Universidade Federal da Bahia, de 1972-2002, atuando na área de Filosofia, regendo disciplinas na graduação, assim como na Pós-Graduação em Educação. Na Universidade Estadual de Feira de Santana, BA (1976 a 1994), atuou nas áreas de Metodologia do Trabalho Científico e Metodologia da Pesquisa. Atualmente, aposentado oficialmente da Universidade Federal da Bahia.

Clique aqui para acessar todos os textos do colunista
www.luckesi.com.br

– Blogs:
www.luckesi.blospot.com – Sobre avaliação
www.luckesi002.blospot.com – Sobre ludicidade

contato@luckesi.com.br


DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here