Seu Venâncio era um homem forte. Forte e trabalhador, bom na lida com a enxada e, nas horas vagas, amansador de burro bravo, como se dizia naqueles tempos.

Trabalhava na roça, na colheita do café, função que já dava sinais de esgotamento por conta das mudanças nos rumos da história do país que deixava de ser tipicamente agrário para tornar-se urbano, provocando assim, o êxodo rural do início dos anos sessenta. Movido pela coragem e talvez pelo desespero, mudou-se com os filhos, alguns ainda muito pequenos, para a cidade grande onde não conhecia ninguém, em busca de novos recursos. Homem de princípios muito rígidos, raramente precisava dar palmadas nos filhos. Seu olhar já bastava para que entendessem o que ele estava pensando. Sem escolaridade e sem profissão definida, pois os seus saberes do campo eram de muito pouca utilidade na cidade, foi trabalhar na construção civil. Sem abrir mão de seus valores, com muita luta, conquistou o seu teto e criou os filhos e filhas, seu maior bem. Sempre elogiados por onde passassem pela sua educação, se tornaram pessoas honradas, embora tenham freqüentado pouco a escola, que naquele tempo não era para todos. Por sua vez, também criaram suas famílias dentro dos mesmos princípios, de acordo com a educação que receberam.

Muita gente confunde conhecimento acadêmico com educação e, no entanto, são coisas distintas. Educar é antes formar a inteligência, a moral e o espírito, muito mais do que acumular conhecimentos científicos. Formar inteligência não é colecionar conhecimentos, mas saber o que fazer com aqueles que possui. Há pessoas extremamente conhecedoras das mais variadas ciências, mas completamente ignorantes quanto ao trato com seus semelhantes, ao mesmo tempo em que existem aqueles que mesmo sem nunca ter tido a oportunidade de freqüentar os bancos escolares, são educadores por excelência, no tocante a formação de caráter. Educam por suas ações.

Hoje, talvez devido à correria do dia a dia, as pessoas não têm mais tempo de cultivar relacionamentos, por mais efêmeros que possam ser e muitas vezes saem por aí distribuindo grosserias. Tratam mal os que os cercam no trabalho, na vizinhança, no condomínio onde moram e assim por diante, sem ao menos perceberem o que estão fazendo, de tão habituados que estão em serem cada vez mais frios, em uma sociedade competitiva, na qual a mais simples demonstração de afeto ou cortesia é interpretada como sinal de fraqueza.

Mas mesmo assim, preocupam-se com a educação de seus filhos, que é afinal, o motivo de pelo qual se sacrificam tanto a ponto de negarem sua própria humanidade. Por isso, escolhem com muito cuidado a escola para onde mandá-los o mais cedo possível. Esperam, além de uma boa bagagem de conhecimentos, que a escola lhes ensine valores morais e humanísticos.  Estão equivocados. A escola sozinha não educa. Ela apenas instrui. A educação é fruto do esforço conjunto da escola e, sobretudo, da família. Portanto faz-se urgente, a nós pais e professores, revermos nossos valores e repensarmos nossos conceitos, “amansarmos o burro bravo” que existe dentro da gente, pois educamos muito mais pelas nossas atitudes, pelo nosso exemplo do que por nossas palavras.

Ah, o seu Venâncio, que tanto prezava a boa educação, teve a alegria de ver sua filha caçula formar-se professora, a quem eu tenho a felicidade de ter como minha esposa, mãe e educadora dos meus filhos.


Matéria por: Arnaldo Junior

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Arnaldo Martinez de Bacco Junior é doutorando em Ciência da Educação (Universidad do Rosário – Argentina), mestre em Educação (Unesp – Araraquara), pós graduado em História Cultural (Claretianas – Batatais) e Metodologia do Ensino de História (São Luis – Jaboticabal) e graduado em História (Uni-Mauá – Ribeirão Preto).

Professor efetivo nas redes estadual e municipal de Ribeirão Preto e das Faculdades São Luis de Jaboticabal, é poeta, escritor, quadrinista, ilustrador e cartunista. Colabordor de vários órgãos de imprensa, é co-fundador do Fanzine cultural Boca de Porco, atuou como radialista no programa Tribo Verde de educação ambiental, é chargista/caricaturista do canal TVMais Ribeirão e do blog Farofa Cultural Ribeirão, entre outras coisas. Tem alguns livros publicados, entre eles, História Popular do Brasil em Quadrinhos, Chico, Chiquinha & Chicão, O palhaço que era triste, A panela Amarela e O menino que falava com as mãos.

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