Encontrar alguém dizendo que “esse negócio de bullying” sempre existiu e que se lembra facilmente de histórias de pessoas cujos apelidos acabaram sendo incorporados aos seus nomes é fato corriqueiro. Porém, necessitamos urgentemente ir além dessa visão simplista, ou até mesmo “poética, de um tema tão atual.

O quadro é sério e frequentemente capaz de aniquilar carreiras e individualidades, na medida que alimenta de forma compulsiva o sentimento de menos valia dentro de uma sociedade patologicamente competitiva. Em termos didáticos, considera-se como ato de bullying aquele é considerado intencional, ofensivo e repetitivo, que leva pessoas ou grupos a se desqualificarem socialmente. Uma situação de humilhação constante, seja ela seja física, falada ou virtual.

Apesar do constante debate em torno das questões que alimentam a violência desse início de século XXI, bem como das discussões acerca das incertezas da pós-modernidade, não acredito que seja óbvio classificar a existência do bullying como mero fruto dessa competição social recheada pelo medo instituído, por mais que ele tenha sua importância no cenário.

Mais que um problema social e comportamental, ele é um sintoma (talvez o mais cruel) de uma sociedade que tem se esmerado em levar seus membros, das mais diferentes faixas de idade, a uma busca insana por uma perfeição pessoal, o que, de maneira geral, gera um estado de ansiedade frequente e muita fragilidade diante do primeiro sinal de fracasso e/ou crítica.

É como se, ao me sentir ofendido, eu entrasse em um estado de autodegradação ou punição, chegando a me culpar pela agressão sofrida. “Se me ofendem é porque mereço”. Nesse aspecto, observe a letra da música “O vencedor”, da banda Los Hermanos, que em certo momento diz: “Olha lá, quem acha que perder / É ser menor na vida / Olha lá, quem sempre quer vitória / E perde a glória de chorar”.

Em outras palavras, diante de um ambiente de crítica, quer intencional ou mal interpretada, o fator que aumenta a sensação de sofrimento está presente muito mais na dor de quem recebe a violência do que na atitude de quem dispara a referida ofensa. Podemos assim comparar o ato do bullying a uma situação de terrorismo, em que a vítima, ao se sentir responsável por “merecer” a violência, muitas vezes se isola, a ponto de acreditar que quanto mais tocar no assunto, mais ela irá se manifestar. Assim, ela passa a evitar compartilhar sua dor, inclusive com amigos e familiares.

Esse isolamento, em casos mais intensos, tende a levar a pessoa a reflexões cíclicas (tipo vai e vem) e sem conexão com a realidade, viabilizando o que podemos chamar de “suicídio social”, com constante sensação de angústia; não sendo descartada a possibilidade de tentativas do suicídio, propriamente dito, como aparente forma de alívio. O combate a esse estágio, mesmo não eliminando a figura do agressor, caso ele exista, passa obrigatoriamente pela descoberta e valorização de nossas diferentes competências.

Passa pela postura naturalmente humana de “acreditar-se merecedor” de um bem viver. Algumas atitudes, ainda comuns por parte de muitos pais que insistem em estimular seus filhos por meio de comparações com irmão ou outros colegas, podem servir de ponto de partida para todo esse processo de desconfiança em si. Não parando por aí, observamos algo semelhante em muitos educadores que, esquecendo-se de princípios básicos da valorização do aluno, apelam para o mesmo expediente.

Não quero com essas colocações descriminalizar pessoas ou grupos que, a partir de seus preconceitos, arrogância e até mesmo patologias, se arvoram em ser juízes e algozes de suas vítimas, pelo simples fato de se sentirem fortalecidos a cada momento em que assistem a impotência de outros. Sem sombra de dúvidas, esses indivíduos são carentes de uma avaliação diagnóstica e intervenção, seja ela psicológica, educativa ou, em casos extremos, judicial.

O que desejo enfatizar é que, na maioria das vezes em que esses fatos se repetem, esquecemo-nos de que a punição do malfeitor e a proteção explícita ao agredido são apenas atitudes pontuais que, via de regra, não contribuem para a reestruturação da história e nem “levam as partes envolvidas à reflexão”, visando situações futuras. Um fato que muitos não enquadram na mesma categoria de sofrimento, mas que ouso chamar de “autobullying”, ocorre quando determinadas pessoas passam a criar uma imagem e consequentemente um “molde perfeito” e, a partir de então, só se qualificam positivamente caso se vejam perfeitamente enquadradas nele.

Percebam que nesses casos, cada vez mais comuns, conseguimos designar a vítima, mas não um agressor em si, já que o processo é consequência de valores mal e excessivamente interpretados a partir de um conjunto desconexo de informações. Julgar e culpar as mazelas sociais é possível, mas como mudar o panorama, especialmente quando observamos a sociedade falando de inclusão, porém tendenciosamente desclassificando todos aqueles que não se encaixam perfeitamente a um padrão que engloba aspectos estéticos, cognitivos, culturais, raciais, sexuais e “coisas e tais…?”.

Não se trata de se estabelecer novas leis (com suas consequentes punições), mas sim de se buscar ambientes de debate, conscientização e prática de valores humanitários, o que obrigatoriamente teria de englobar famílias, escolas e as demais instituições sociais. Com certeza, um trabalho lento e que perduraria por várias gerações. De forma direta, saliento que uma situação de conflito é sempre composta por um grupo de pessoas em desequilíbrio, quer sejam as que agridem, as que são agredidas e até aquelas que assistem ou, nos últimos tempos, até filmam.

Afirmo isso em razão de acreditar por experiência profissional que o equilíbrio psicossocial levaria o indivíduo a avaliar de forma ética e cidadã os cenários em questão, passando a apresentar atitudes de indignação com elas.

Assim sendo, todas as pessoas envolvidas são merecedoras de cuidados, que devem ir da advertência à orientação, passando pelo exercício das reinterpretações não apenas dos fatos envolvidos, como também de outras histórias afins.

Nesse aspecto, torna-se fundamental que pais e educadores sejam preparados para agir sem exageros e com ponderação na apresentação dos problemas e na condução de debates entre os envolvidos. Muito além da crítica ou até mesmo punição destinada ao que é considerado culpado pela situação agressiva, as escolas, famílias e demais instituições precisam se concentrar no fortalecimento daquele que é visto como vítima, bem como em uma conversa aberta e instrutiva com o grupo envolvido com a situação.


Colunista: Guilherme Davoli

  • Guilherme Davoli
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Guilherme Davoli
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Psicólogo atuante como psicoterapeuta, professor de psicologia, consultor empresarial e educacional. Autor dos livros:
“Admirando a tempestade e brincando com o vento”
“Vítimas e aprendizes da própria história”
“Somos mais que um simples espetáculo” “Colecionadores de histórias”
Articulista das revistas: “Evidência”, “Profissão Mestre”, “Conectado”, “Ultimato online”, SME-Sistema Mackenzie de Ensino” e do jornal “The Brasilians” (New York). Palestras, cursos e oficinas em empresas, órgãos públicos e instituições de ensino, desenvolvendo temas pertinentes à educação, relacionamento interpessoal e qualidade de vida.

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